Uma vida de conceitos

No início, as coisas eram avaliadas por seu valor intrínseco. Como exemplo, temos os padrões monetários antigos: sal, gado, prata, ouro, etc.

Segundo alguns cientistas, nosso verdadeiro diferencial foi o pensamento abstrato, a habilidade em lidar com conceitos. Esse assunto foi mencionado numa reportagem da Superinteressante:

superinteressante_2007_01Foi quando algo mudou o destino do Homo sapiens: uma mutação genética sutil, mas crual, que alterou a estrutura do cérebro deles. O bicho ficou louco: passou a dividir sua vida entre o mundo real e um de fantasia. Com esse “defeito” nos miolos, o homem passou a imaginar, mundos diferentes, que só existia na cabeça dele. E vomitou esses mundos na forma de pinturas, esculturas, rituais religiosos.

Desse jeito, descobrimos como manipular não só coisas materiais, mas também idéias e conceitos. E aprendemos a transmiti-los com a ajuda de uma linguagem quase tão cheia de recursos quanto o inglês e o português modernos. Tudo isso deu à luz o primeiro boom tecnológico de todos os tempos. A África se transformou num Vale do Silício pré-histórico. O sapiens, que antes só fazia ferramentas de pedra ou madeira, diz um basta para a mesmice – chega de fabricar a mesma lança por milênios a fio. E acorda para o fato de que ossos, conchas, chifres e marfim também serviam como matéria-prima. Isso abriu as portas para novos utensílios. E tome arpões, facas mais afiadas do que nunca, lanças de alta precisão… De uma hora para outra, o sapiens tinha um arsenal.

Piratas da Informática (DVD)Na década de 70, pensava-se que computadores eram coisas caras, interessantes apenas para grandes organizações. Não deixava de ser verdade, mas uma revolução estava começando. E aqueles que não perceberam as mudanças perderam grandes oportunidades. O filme Piratas da Informática (Pirates of Silicon Valley – 1999) retrata a mentalidade da época e alguns exemplos miopia empresarial que se tornaram clássicos…

Quando Steve Wozniak, funcionário da Hewlett-Packard, ofereceu-lhes um protótipo do Apple I, ouviu a seguinte resposta:

Você diz que seu equipamento é para as pessoas comuns. Para que as pessoas comuns iriam querer computadores?
Executivo da Hewlett-Packard, ao ver o protótipo do Apple I

O problema é que o Apple I não era um computador, era um microcomputador.

apple_iAlguns minutos depois, vemos a arrogância com que a Xerox não considerou algo chamado mouse (camundongo, em inglês). Com essa frase, eles abriram mão da Interface Gráfica (GUI – Graphics User Interface), base de quase todos os sistemas operacionais de hoje!

Mais adiante, vemos a tranqüilidade com que um executivo da IBM reage à proposta da Microsoft de licenciar o MS-DOS, ao invés de vendê-lo costume na época:

O lucro está nos hardware, não no software. Não é grande coisa.
Executivo da IBM, ao aceitar que a Microsoft licenciasse o MS-DOS

Hoje, uma afirmação dessas parece piada…

O mais interessante é que muitas
das grandes invenções não passa de uma evolução de tecnologias já existentes, uma mudança de conceitos… O microcomputador foi apenas a redução (em tamanho e preço) dos computadores, que já existiam há anos. Assim como ele, outras invenções apenas mudaram a nossa forma de ver a vida. Alguns exemplos:

  • Telefone celular – evolução do telefone fixo. Alguém consegue se imaginar em casa esperando uma ligação? E a vida sem identificador de chamadas?
  • Internet – uniu a tecnologia de rede, os protocolos TCP/IP e o protocolo HTTP. Hoje cada vez mais pessoas preferem o e-mail às cartas e o home banking às filas de banco. Isso sem falar nos programas de telefonia sobre IP…
  • Ferramentas de busca – decorrência da internet, dos bancos de dados relacionais e do aumento da capacidade dos computadores. Quando estava na faculdade, fazíamos nossas pesquisas na biblioteca, entre uma estante e outra, com uma pilha de livros ao lado. Hoje, luto para evitar que meus alunos usem o “copiar e colar”…
  • MP3 player – descendente do walkman, da música digital, dos algoritmos de compressão e das memórias flash. Hoje cada um carrega uma discoteca num aparelhinho de poucos gramas.

A novidade do momento é o iPhone. O que ele é? Difícil dizer. Ele:

  • toca música e filmes digitais mas não é um iPod (produto da própria Apple);
  • executa todas as funções dos celulares mais avançados, incluindo uma câmera digital que muitos deles não têm;
  • tem os recursos de um smartphone, mas é mais elegante e versátil que um Treo ou um Blackberry;
  • roda programas e navega na internet, mas não é um “PDA incrementado” como o Palm TX;
  • sua interface é a mais amigável que ouvi falar – quase não tem botões!

Muito se falou (e se falará ainda) sobre o iPhone. Há matérias na internet, em jornais, em revistas, na televisão… Mas, a despeito do que a Apple tenta fazer parecer, o iPhone não é perfeito e, acabado o impacto inicial, já começaram a surgir questionamentos. Há, inclusive, uma disputa pela marca “iPhone”.

Minha intenção não é avaliar o produto (que ainda não está sendo nem comercializado) mas observar a capacidade que alguns têm de enxergar o que outros não vêem. Mais uma vez, o mundo está sendo sacudido com um anúncio da Apple.

jobs_wozniak jobs_iphone

Enquanto a Microsoft trabalha com evolução de produtos dos concorrentes, a Apple trabalha com revolução de produtos dos concorrentes. Nenhuma das duas está errada. São apenas filosofias diferentes e, ambas, necessárias.

A reportagem da Veja desta semana (edição 1991, 17/01/2007) tem alguns trechos interessantes, como a observação da triste coincidência entre o lançamento do iPhone e o polêmico bloqueio do YouTube aqui no Brasil:

veja_2006_01_17Chega a ser patético que, na semana em que o iPhone foi lançado, o Brasil rivalizava com o aparelho da Apple nas páginas de tecnologia dos jornais em todo o mundo. Nosso feito? Tentar tirar do ar o YouTube, um serviço de internet de alcance mundial que hospeda pequenos vídeos digitais colocados ali pelos próprios usuários. A idéia de um juiz brasileiro era impedir que fosse visto o vídeo em que uma modelo brasileira, Daniella Cicarelli, aparece em vias de fato com o namorado em uma praia da Espanha. O juiz mandou, com o perdão da expressão, cortar o mal pela raiz. Como não se conseguia impedir apenas a exibição do vídeo, a solução que ocorreu foi tirar do ar o site inteiro. O lançamento do iPhone e a tentativa de proibição do YouTube são símbolos de duas culturas, de dois ambientes antagônicos de negócios, de duas visões de mundo. Feliz o país cuja cultura, cujo ambiente de negócios e cuja visão de mundo produzem o iPhone e o YouTube. Pobre do país que proíbe o YouTube.

Muitos questionaram se a modelo deveria ou não ser boicotada. Mas poucos questionaram o papel ridículo que o país inteiro fez graças a um juiz que ainda teve a estupidez arrogância de escrever:

3. O bloqueio do site está gerando uma série de comentários, o que é natural em virtude de ser uma questão pioneira, sem apoio legislativo. O incidente serviu para confirmar que a Justiça poderá determinar medidas restritivas, com sucesso, contra as empresas, nacionais e estrangeiras, que desrespeitarem as decisões judiciais. Nesse contexto, o resultado foi positivo.

Determinar medidas restritivas com sucesso?! O resultado foi positivo?!

Voltando ao assunto, outro ponto positivo na matéria da Veja, foi a reflexão sobre as diferenças entre os “países que produzem o YouTube” e os “países que proíbem o YouTube”:

  • Falta de investimento em educação. Durante as duas décadas de vigência da reserva de mercado, o país não deu prioridade aos investimentos em educação e formação de recursos humanos de alto nível para pesquisa e produção industrial, como fizeram países emergentes a partir dos anos 70, por exemplo, Coréia do Sul, China, Malásia e Irlanda.
  • Falta de investimento em pesquisa. Ainda nesse período de fechamento quase total do mercado, o Brasil não investiu o mínimo essencial em pesquisa e desenvolvimento tecnológico.

Foram grandes erros para o Brasil. Como eu disse, no começo as coisas eram avaliadas pelo eu valor intrínseco, mas hoje, elas são avaliadas pelo seu valor potencial. Antes, ficava rico quem inventava alguma coisa nova. Hoje, não é preciso tanto. Basta alguém criar uma forma de combinar tecnologias existentes, gerando um novo produto. E a matéria-prima para essa transformação é justamente o conhecimento. Vacilamos… Muito!

O Brasil precisa aprender a valorizar o conhecimento e a experiência das pessoas, estimular a pesquisa, o desenvolvimento. Considero bobagem tentarmos lutar com as grandes potências na área tecnológica. A luta é desigual. Precisamos lutar com inteligência. Combinar as invenções deles em novos produtos, cujo valor agregado seja maior que o valor individual de cada um dos produtos iniciais!

PADD“Convergência” é o nome dado à tendência de agrupar várias tecnologias em um único produto. Neste aspecto, produtos como o iPhone abrem novos caminhos para tirar os concorrentes da “mesmice”. Chega de meros “celulares com câmera”!

É impressão minha (afinal, sou fã de Star Trek), ou o iPhone está um passo mais perto dos PADDs?

5 comentários sobre “Uma vida de conceitos

  1. É isso que dá escrever de madrugada: deixei dois parágrafos inteiros de fora!

    No fim do texto, acrescentei o trecho que começa com Foram grandes erros para o Brasil e termina com Combinar as invenções deles em novos produtos, cujo valor agregado seja maior que o valor individual de cada um dos produtos iniciais!.

  2. […] surgiu a Microsoft, que colocou o DOS dentro dos computadores pessoais que a IBM tinha criado (afinal de contas, todos sabem que o lucro está no hardware). E viu a Microsoft que o software era o futuro da computação. Então surgiu o Windows todas as […]

  3. […] surgiu a Microsoft, que colocou o DOS dentro dos computadores pessoais que a IBM tinha criado (afinal de contas, todos sabem que o lucro está no hardware). E viu a Microsoft que o software era o futuro da computação. Então surgiu o Windows todas as […]

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