Ultimatum

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Quando coloquei este site no ar, dediquei um bom tempo a encontrar algo especial para a primeira postagem. Encontrei vários textos que me agradavam, mas nenhum parecia adequado ao papel de texto inaugural… Na época, optei por um texto de Elisa Lucinda, lido por Ana Carolina, que combinava perfeitamente com o perfil que pretendia dar ao site: um convite à reflexão, ao contínuo esforço de nos tornarmos melhores a cada dia.

Desde então, tive a felicidade de encontrar vários outros textos tão bons quanto aquele, mas fiquei muito feliz por, justamente agora, dez anos depois, encontrar outro muito parecido: declamado por outra grande cantora, em uma de suas apresentações no hoje distante 2007, que traz uma mensagem tão profunda e atual quanto aquele.

Link para o vídeo

Ultimatum

Por Álvaro de Campos*

Mandado de despejo aos mandarins do mundo

Fora tu, reles esnobe plebeu
E fora tu, imperialista das sucatas
Charlatão da sinceridade
e tu, da juba socialista, e tu, qualquer outro
Ultimatum a todos eles
E a todos que sejam como eles
Todos!

Monte de tijolos com pretensões a casa
Inútil luxo, megalomania triunfante
E tu, Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral
Que nem te queria descobrir

Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular
Que confundis tudo
Vós, anarquistas deveras sinceros
Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores
Para quererem deixar de trabalhar
Sim, todos vós que representais o mundo
Homens altos
Passai por baixo do meu desprezo
Passai aristocratas de tanga de ouro
Passai frouxos
Passai radicais do pouco
Quem acredita neles?
Mandem tudo isso para casa
Descascar batatas simbólicas

Fechem-me tudo isso a chave
E deitem a chave fora
Sufoco de ter só isso a minha volta
Deixem-me respirar
Abram todas as janelas
Abram mais janelas
Do que todas as janelas que há no mundo

Nenhuma ideia grande
Nenhuma corrente política
Que soe a uma ideia grão
E o mundo quer a inteligência nova
A sensibilidade nova
O mundo tem sede de que se crie
Porque aí está apodrecer a vida
Quando muito é estrume para o futuro
O que aí está não pode durar
Porque não é nada

Eu da raça dos navegadores
Afirmo que não pode durar
Eu da raça dos descobridores
Desprezo o que seja menos
Que descobrir um novo mundo
Proclamo isso bem alto
Braços erguidos
Fitando o Atlântico

E saudando abstratamente o infinito.

* Álvaro de Campos foi um dos heterônimos mais conhecidos, verdadeiro alter ego do escritor português Fernando Pessoa, que fez uma biografia para cada uma das suas personalidades literárias.

Infelizmente, não consegui descobrir se, como afirma Maria Bethânia, esta versão também é de Álvaro de Campos. É verdade que ela lembra bastante a versão original, publicada na única edição da revista Portugal Futurista. Contudo, enquanto a versão original é uma dura crítica às influências estrangeiras na cultura lusitana, esta é bem mais curta e menos explícita, apresentando um caráter mais genérico, aparentemente voltado às mazelas do mundo como um todo.

Se alguém puder esclarecer quem é o autor dessa versão, fico muito agradecido. Enquanto isso, aconselho ler a análise feita pela professora Daiana Pasquim para a versão original, escrita por Álvaro de Campos.

8 comentários sobre “Ultimatum

  1. Muito bom. Vou colocar o vídeo no ZEducando. Porém, apenas lembrando, Fernando Pessoa sempre foi um tanto quanto direitista, a despeito de ser um dos maiores poetas da língua portuguesa. Abs,

    • Primeiro, lembro que não tenho certeza de que essa versão do texto realmente é dele! Isto posto, o texto original realmente critica a influência estrangeira na cultura portuguesa, sem preocupar-se muito com ideologias.

      Na minha opinião, essa versão segue o mesmo padrão, criticando duramente os anarquistas e os socialistas, assim como o reles esnobe plebeu e o imperialista das sucatas.

      Ele literalmente chuta o pau da barraca!

      • Como fiz a ressalva, ele de fato é muito bom e um dos melhores poetas da nossa língua. Mas… os dados que você colocou comprovam o que eu disse.

        • Concordo, notei isso. Contudo, como ele critica para todos os lados (até anarquistas!), abstraí.

          Penso que estamos precisando desse olhar crítico generalizado hoje dia…

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