Truco, cerveja e universidade

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Normalmente, discordo do estilo de Dagomir Marquezi. Dessa vez porém, com as devidas ressalvas (truco não é um jogo comum no Nordeste), gostei muito do texto dele.

Em tempo, truco é um jogo de cartas, bastante rápido e barulhento, onde o blefe é a melhor arma. O equivalente mais próximo entre os nossos universitários seria o dominó…

Truco, cerveja e universidade

Por Dagomir Marquezi — Revista Info, Editora Abril, edição 228, ano 20, nº 3, março de 2005, página 38

Se você quer um retrato real da situação do ensino brasileiro, não vá às universidades. Passe nos bares ao redor, uma reportagem publicada pelo jornal Folha de São Paulo, em 22 de fevereiro, deu uma geral nos botecos vizinhos às mais importantes instituições de ensino da maior cidade do Brasil. Encontrou nossos bravos estudantes jogando truco e enchendo a cara de cerveja às 9 e meia da manhã.

A educação brasileira está bêbada. Sempre esteve meio grogue. Mas as diferenças agora se aprofundam. A revista Veja recentemente fez uma interessante comparação entre a Coréia do Sul (onde a educação é prioridade) e o Brasil (onde nunca foi). Os resultados das duas atitudes são óbvios. Os estudantes sul-coreanos disputam quem é o melhor nos estudos desde pequenos, e com isso se aperfeiçoam e enriquecem o país. Os estudantes brasileiros estão disputando quem é o melhor no truco.

O mais absurdo de tudo isso é que vivemos a era de ouro da tecnologia da informação. A internet pilotada com um Google já é o suficiente para garantir uma quantidade de conhecimento impossível de ser assimilada por qualquer indivíduo. Há 25 anos, estudante freqüentava biblioteca pública. Agora, pode assinar a Encyclopedia Britannica com o cartão de crédito. Consultas são realizadas com e-mails e messengers.

Como diria o grande mestre Frank Zappa, informação não é conhecimento, e conhecimento não é sabedoria. Não adianta encher os brasileiros de computa­dores conectados à internet e dar a isso o nome pomposo de “inclusão digital”. Nossa educação está como o trânsito: os carros estão cada vez melhores. Os motoristas, cada vez piores. Tecnologia precisa de cérebro e de um projeto para o futuro.

Não podemos generalizar, é claro. Os brasileiros que conseguem escapar desse redemoinho de mediocridade merecem todo apoio e admiração. Até por terem vencido em um ambiente tão hostil ao progresso. Mas exceções são exceções, e os estudantes que hoje chamam o garçom (e eventualmente o Hugo) às 9 da manhã estão virando regra.

Sem moralismo. Eu, quando fui universitário, tomei quase todas. Mas no meio da faculdade entendi que não estava aprendendo nada que prestasse mesmo. E decidi me educar. Gastei tudo o que ganhava em livros, aprendi a ler bem em inglês, procurei profissionais que pudessem realmente me ensinar alguma coisa. Não dependi de professores, cursos e notas. Extraí do mundo tudo o que pude de melhor. E nunca mais parei.

Nessa época, eu escrevia em máquina de escrever, e televisão se limitava à Rede Globo e a três concorrentes. Hoje, o estudante tem todo o mundo ao alcance de um mouse e centenas de canais de TV por assinatura. Para se educar, basta se ligar. É um banquete de conhecimento, na moleza absoluta. O único pré-requisito é um cérebro formado, treinado e disposto a processar toda essa informação. Mais do que isso – precisa de motivação. Sem motivação, essa informação toda é lixo.

É onde voltamos às mesas de truco. Que motivação esses jovens têm para evoluir? O melhor computador do mundo é inútil para pessoas criadas num sistema educacional mofado. Esse sistema não muda, e agora acelera a própria deterioração. Não há “inclusão digital” que resolva num governo que tem como utopia o stalinismo dos anos 1930 e um presidente que usa a própria ignorância como marketing político. Em todo caso, se beber, não estude. Se estudar, não beba.

Um comentário sobre “Truco, cerveja e universidade

  1. Muito bom este texto do Marquezi, na época que eu estudava, tinha algumas pessoas que eu só via no buteco, nunca tinha visto dentro da facul

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