Talento: quanto mais, melhor?

tatica.jpgRecebi um e-mail com um texto de Max Gehringer sobre o costume de exigir qualificações exageradas nos processos de seleção, “inflacionando” o mercado sem necessariamente contratar a pessoa mais indicada para o cargo.

O texto me lembrou muito um outro, de Rubem Alves, que li no zÉducando, chamado O Canto do Galo. Apesar de ser voltado para a área acadêmica, passa ensinamentos parecidos e definitivamente vale a pena ser lido.

Voltando ao texto de hoje, encontrei-o no Portal Exame e estava inclusive mais completo!

Talento em excesso

por Max Gehringer

As múltiplas habilidades da mulher que copiava

Há 30 anos, talvez um pouquinho mais, o Santos Futebol Clube tinha aquele timaço acima de qualquer suspeita — seu currículo de conquistas já era tão extenso que nem caberia nesta página. Apesar disso, o apetite da equipe por vitórias continuava o mesmo, e lá estava o Santos na reta final para vencer mais um campeonato. Então, numa daquelas partidas contra um time sem expressão, em que o Santos sempre se empanturrava de fazer gols, a máquina emperra. O tempo vai passando, passando, e o placar teima em não sair do zero.

Aquele pontinho perdido poderia ser desastroso, e Lula, o técnico do Santos, ia ficando cada vez mais aflito. Até que, faltando 15 minutos para o fim do jogo, ele cansa de esperar que seus craques resolvam a situação por conta própria e decide tomar uma providência gerencial. Olha para o banco de reservas e chama o atacante Pitico.

— Pitico, vem cá. É o seguinte. O Pelé ficou muito isolado ali na frente. Vai lá e encosta nele, para a gente ter mais opção de ataque.

— Falou, seu Lula.

— Além disso, nosso meio-de-campo está no maior bagaço. Você volta um pouquinho quando a gente estiver com a bola, para ajudar na armação.

— Certinho, seu Lula.

— Só mais uma coisa. O ponta-esquerda deles já matou o Carlos Alberto de tanto correr. Quando eles saírem jogando, você cai ali pela direita e fecha o espaço. Alguma dúvida?

— Só uma, seu Lula. Se o senhor acha que eu sou mesmo capaz de fazer tudo isso, por que é que eu ganho só três salários mínimos por mês?

Eu me lembrei dessa história na semana passada, quando vi um anúncio de emprego. A vaga era de gestor de atendimento interno, nome que agora se dá à seção de serviços gerais. E a empresa contratante exigia que os eventuais interessados possuíssem — sem contar a formação superior — liderança, criatividade, energia, ambição, conhecimentos de informática, fluência em inglês e, não bastasse tudo isso, ainda fossem hands on. Para o felizardo que conseguisse convencer o entrevistador de que possuía mesmo essa variada gama de habilidades, o salário era
um assombro: 800 reais. Ou seja, um pitico.

Não que esse fosse algum exemplo absolutamente fora da realidade. Pelo contrário, ele é quase o paradigma dos anúncios de emprego atuais. A abundância de candidatos está permitindo que as empresas levantem, cada vez mais, a altura da barra que o postulante terá de saltar para ser admitido. E muitos, de fato, saltam. E se empolgam. E aí vêm as agruras da superqualificação, que é uma espécie do lado avesso do efeito pitico… Vamos supor que, após uma duríssima competição com outros candidatos tão bem preparados quanto ela, a Fabiana conseguisse ser admitida como gestora de atendimento interno. E um de seus primeiros clientes fosse o seu Borges, gerente da contabilidade.

— Fabiana, eu quero três cópias deste relatório.

In a hurry!

— Saúde.

— Não, isso quer dizer “bem rapidinho”. É que eu tenho fluência em inglês. Aliás, desculpe perguntar, mas por que a empresa exige fluência em inglês se aqui só se fala português?

— E eu sei lá? Dá para você tirar logo as cópias?

— O senhor não prefere que eu digitalize o relatório? Porque eu tenho profundos conhecimentos de informática.

— Não, não. Cópias normais mesmo.

— Certo. Mas eu não poderia deixar de mencionar minha criatividade. Eu já comecei a desenvolver um projeto pessoal visando eliminar 30% das cópias que tiramos.

— Fabiana, desse jeito não vai dar!

— E eu não sei? Preciso urgentemente de uma auxiliar.

— Como assim?

— É que eu sou líder, e não tenho ninguém para liderar. E considero isso um desperdício do meu potencial energético.

— Olha, neste momento, eu só preciso das três có…

— Com certeza. Mas antes vamos discutir meu futuro…

— Futuro? Que futuro?

— É que eu sou ambiciosa. Já faz dois dias que eu estou aqui e ainda não aconteceu nada.

— Fabiana, eu estou aqui há 18 anos e também não me aconteceu nada!

— Sei. Mas o senhor é hands on?

— Hã?

Hands on. Mão na massa.

— Claro que sou!

— Então o senhor mesmo tira as cópias. E agora com licença que eu vou sair por aí explorando minhas potencialidades. Foi o que me prometeram quando eu fui contratada.

Então, o mercado de trabalho está ficando dividido em duas facções. Uma, cada vez maior, é a dos que não conseguem boas vagas porque não têm as qualificações requeridas. E o outro grupo, pequeno, mas crescente, é o dos que são admitidos porque possuem todas as competências exigidas nos anúncios, mas não poderão usar nem metade delas, porque, no fundo, a função não precisava delas.

Alguém ponderará — com justa razão — que a empresa está de olho no longo prazo: sendo portador de tantos talentos, o funcionário poderá ir sendo preparado para assumir responsabilidades cada vez maiores. Em uma empresa em que trabalhei, nós caímos nessa armadilha. Admitimos um montão de gente superqualificada. E as conversas ficaram de tão alto nível que um visitante desavisado que chegasse de repente confundiria nossa salinha do café com o auditório da Fundação Alfred Nobel.

Até que um dia um grupo de marketing e finanças foi visitar uma de nossas fábricas. E, no meio da estrada, a van da empresa pifou. Como isso foi antes do advento do milagre do celular, o jeito era confiar no especialista, o Cleto, motorista da van. E aí todos descobriram que o Cleto falava inglês, tinha noções de informática e possuía energia e criatividade. Sem mencionar que estava fazendo pós-graduação. Só que não sabia nem abrir o capô.

Duas horas depois, quando o pessoal ainda estava tentando destrinchar o manual do proprietário, passou um sujeito de bicicleta. Para horror de todos, ele falava “nóis vai” e coisas do gênero. Mas, em 2 minutos, para espanto geral, botou a van para funcionar. Deram-lhe uns trocados, e ele foi embora feliz da vida. Aquele ciclista anônimo era o protótipo do funcionário para quem as empresas modernas torcem o nariz, uma espécie de pitico contemporâneo. O que é capaz de resolver, mas não de impressionar.

Não pretendo, ao publicar esse texto, dizer que não se deve exigir dos candidatos!

Penso que as empresas devem sempre procurar os melhores recursos disponíveis, mas uma coisa é exigir capacidade para execução de uma função, outra bem diferente é exigir por exigir, apenas porque há mais candidatos do que vagas. Os concursos atualmente, por exemplo, são voltados mais para eliminar o excesso de candidatos do que para selecionar os melhores funcionários/servidores…

O texto de Rubem Alves mostra algo semelhante na área acadêmica onde, às vezes, o ensino impressiona menos do que deveria…

2 comentários sobre “Talento: quanto mais, melhor?

  1. Em épocas de Aprendiz “o sócio”, não exigir é um pecado mortal!!!
    Todos temos que ser extremamente bons em tudo! Eu sou guarda civil há 12 anos e agora, recentemente, pra subir de classe, tive que praticamente prestar um concurso com questões matemáticas retiradas de prova de FATEC, e eu te pergunto, pra que???

    Enfim, estou de endereço novo:
    netocury.wordpress.com/

    Atualize também o feed:
    netocury.wordpress.com/feed/

    • Opa! Creio que não ficou claro: eu concordo que temos que ser extremamente bons em tudo!

      Porém, no texto (e às vezes, na vida real), contrataram uma pessoa extremamente qualificada para tirar xerox. Ou seja, a especialização é benéfica mas considere a seguinte situação: se for exigido nível superior para um “gestor de atendimento interno”, o que farão as pessoas com nível médio?

      Como diz o povo: tudo demais, sobra

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