Sua vida é pública ou privada?

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A revista Info de maio traz um artigo sobre a privacidade na internet, mais especificamente, nas redes sociais. Considero esse assunto muito negligenciado, tendo escrito sobre ele pelo menos três vezes:

Claro que não é necessário terminar como Richard Stallman, que em nome da privacidade, evita celulares e lê as páginas da internet baixando-as uma a uma, sem um navegador. Mas contar detalhes de sua vida a estranhos é, na minha opinião, um convite a problemas.

A maioria das pessoas parece ter perdido a noção do que é privacidade (ou não lhe dá o devido valor). Elas parecem considerar que suas vidas são de interesse público, expondo intimidades e detalhes de sua rotina sem a menor preocupação com segurança. Nem parece que moram no mesmo país em que até o vice-presidente é alvo de trotes telefônicos criminosos! E, segundo um especialista em segurança, mesmo ele, vice-presidente da república, reagiu mal!

Sendo assim, espero que o texto de Dagomir Marquezi, ajude as pessoas a reverem seus conceitos com relação a privacidade e segurança…

Janelas Abertas

por Dagomir Marquezi — Revista Info, Editora Abril, edição 291, maio de 2010, p. 24

Já vi dois atores combinando pelo Twitter onde iam jantar em São Paulo. Conversando no aberto, para milhares de seguidores. Estavam na novela principal da Globo, não precisavam de promoção. Foi natural. Vamos jantar? Quero experimentar o restaurante X, na rua Y. Você passa pra me pegar? Vou só tomar um banho e te dou um toque para descer. São coisas que falávamos discretamente ao telefone.

Não são só conversas pessoais que você lê no Twitter. O pensamento das pessoas é divulgado em tempo real. Estou com frio, mas com preguiça de pegar um agasalho. Meu desejo secreto para hoje é chicotear um pagodeiro. Não estou julgando ninguém. Como aqui não é a China, cada um escreve o que quer. Tem quem posta citações de filósofos em francês. Ou conta gracinhas do filho. Fazem propaganda partidária disfarçada. Xingam a operadora de celular. Descrevem o dia a dia em detalhes. Estou preso no congestionamento há 18 minutos. Não tenho nenhum CD no carro.

Estou em algumas redes e não sou o mais interessante dos usuários. Devo provocar bocejos. A fase estou no Sapore comendo um espaguete acabou faz tempo. Divulgo minha vida profissional. Admiro quem sustenta artigos com imaginação, técnica e conteúdo. Não resisto a acompanhar esses strip-teases de intimidade. Eles viciam.

VIPs anunciam divórcios pelo Twitter. Já li narrações de jantares ao vivo. Fulano chegou. Agora estamos tomando um aperitivo e ouvindo João Gilberto. Pessoas podem ganhar 1,5 milhão de reais e se tornar celebridades instantâneas expondo suas mais secretas intimidades numa casa cheia de câmeras. Milhões de cidadãos fora dela passam os dias comentando o que ocorre lá dentro. Que sociedade estamos criando?

A privacidade é um direito humano, conseguido legalmente no fim do século 19, exatamente quando a imprensa começou a se tornar tecnologicamente mais ágil e popular. Surgiu a necessidade de criar limites a repórteres e fotógrafos. A vida privada sempre foi um privilégio dos poderosos. Hoje é um bem que está na Constituição brasileira, garantido no artigo 5. Foi um direito duramente conquistado.

O que acontece quando abdicamos desse direito e tornamos nossa vida privada um espetáculo público? Ser famoso hoje é profissão. Há a modelo-atriz famosa por contar à imprensa de fofocas até seu calendário menstrual. E o empresário que namora uma modelo por quinzena e chama a mídia para testemunhar. Vivemos num mundo de paixões, baixarias, trocas de casais, transas mal disfarçadas sob os lençóis transmitidas em cadeia nacional.

As mídias sociais são o que as pessoas fazem delas. Como tudo, cada um faz e aproveita o que quer. Quem quiser dizer pelo Facebook que odeia a mãe, que o diga. Quem quiser contar que a esposa saiu e não voltou, que o faça. Ninguém tem nada a ver com isso. Mas vai passar a ter.

2 comentários sobre “Sua vida é pública ou privada?

  1. Caro amigo,

    Tive oportunidade de comprar e ler a revista mencionada neste seu post. Além deste post, outro que é correlato á área de segurança me despertou interesse: “O FIM DO CONHECIMENTO”. Caso você tenha esta revista em meio magnético, favor me enviar.

    abraço,

    José Rosa

    • Meu “ídalo” Zé Rosa,

      Li o exemplar de meu sogro, que assina essa revista. Não a tenho em meio magnético (precisei digitar o artigo de Marquezi todo).

      Você tem mesmo um olho bom para posts: também vi essa reportagem e pretendia escrever sobre ela para a próxima quarta-feira.

      Quer escrever sobre ela? Tem tanto tempo que não escrevo, que o que não me falta é tema…

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