Racismo ou discriminação?

É a segunda vez que vejo uma edição da revista Veja trazer uma reportagem tratando do sistema de cotas. Não sou de concordar com o que diz a revista (acho-a tendenciosa), mas creio que vale uma análise.

Na edição nº 1.969, de 16/08/2006, o livro Não somos racistas, de Ali Kamel, foi o pretexto para avaliarem o sistemas de cotas, afirmando, no geral, que esse sistema institucionaliza o racismo no Brasil. O texto afirma que o racismo existe sim no Brasil, mas que a discriminação é maior quanto à classe social do que quanto à cor da pele. Assim, ao invés de corrigi-lo, classificar e tratar as pessoas de acordo com a raça apenas agrava o problema, colocando em lei um péssimo costume herdado do Brasil colonial.

Na edição nº 1.972, de 06/09/2006, a coluna de Roberto Pompeu de Toledo tratou sobre a peça Vozes do Holocausto e, novamente, sobre sistema de cotas. O trecho abaixo expressa bem minha opinião sobre esse sistema:

roberto_toledo[…]
Cotas nas universidades para alunos negros ou mestiços (sem essa de “afro-descendentes”, por favor) são um assunto complicado. Quem se diz contra arca com as pechas infamantes ou de cúmplice da injustiça ou de crédulo partidário da lenda de que no Brasil não há preconceito racial. Para comprovar que há, sim, preconceito, basta lembrar que a escrava Isaura era branca. Ou seja: a personagem central da principal obra literária contra a escravidão no Brasil era uma escrava branca, uma fantasia de ficcionista. Ficaria mais difícil os leitores se emocionarem com sua sorte se ela fosse apresentada como negra. Sim, há preconceito no Brasil, argumentariam os que, ainda assim, se oporiam às cotas – mas e o mérito? Onde fica a democracia, se no processo de seleção passa a influir a cor da pele, em detrimento da qualificação intelectual? O argumento revela-se falacioso quando se lembra que no país, mais do que o mérito, é o privilégio que favorece o acesso às melhores escolas. Nascer num lar bem fornido é meio caminho andado para passar no vestibular.

Até aqui os argumentos se amontoam a favor das cotas. Até que se esbarra numa amarga realidade. Para pô-las em vigor é antes necessário identificar quem está credenciado a se beneficiar delas. Ora, não há outro modo senão estabelecendo, de modo oficial, quem é negro, quem é mulato e quem é branco. Começa então a derrocada. O Brasil até agora viveu livre de tais classificações. Não que tenha sido muito feliz sem elas, mas arrisca-se a ser muito mais infeliz com elas. Quem gosta de classificar é americano. Lá existe até a categoria de “latinos”, para classificar racialmente as populações que se estendem do México para baixo. A classificação engessa os grupos em entidades separadas e irredutíveis entre si e alimenta sua mútua hostilidade.

No Brasil, vigora a bagunça. Ronaldo Fenômeno se considera branco (e com toda a razão, porque a melhor norma é que cada um se imagine da cor que bem entender), assim como Vinicius de Moraes se proclamava, desafiadoramente, “o branco mais preto do Brasil”. A bagunça funciona nesse caso a favor, como antídoto à segregação, filha dileta das classificações. O preconceito no Brasil convive com a força contrária da confusão, da mistura, da malemolência. Se é para ser atacado o privilégio no acesso à universidade – e é –, que o seja por meio de cotas por renda, ou para alunos de escola pública, não pela cor da pele.
[…]

Como podem notar, do alto da minha ignorância, considero o sistema de cotas, no mínimo, imperfeito. Ao estabelecer que negros (ou qualquer outra raça) precisam concorrer separadamente, está afirmando que os representantes daquela(s) raça(s) estão em desvantagem, precisando de um “empurrão”, quando, na verdade, quem precisa de empurrão são aqueles (brancos, negros, verdes ou azuis) que dependeram da educação capenga fornecida pelo Governo.

Um amigo meu costuma dizer que não tenho “conhecimento de causa” e provavelmente está certo: não estudo o assunto nem sou diretamente afetado por ele no momento, já que não estou concorrendo a vagas de concurso ou de faculdade. Falo apenas como leigo.

Portanto, se falei bobagem, peço desculpas.

9 comentários sobre “Racismo ou discriminação?

  1. Não falou bobagem! Eu penso assim tb! As cotas deveriam ser pra quem não teve uma boa base escolar. Não tem nada aver com a cor da pele, do cabelo, do olho, ou sei lá o que. Essa última parte traduz perfeitamente o que eu penso!! "…que o seja por meio de cotas por renda, ou para alunos de escola pública, não pela cor da pele." Muito bom! Amei esse tópico!

  2. Muito bom esse tópico sobre cotas e esse fato que infelizmente afeta o Brasil que é a discriminação. As pessoas que sofrem discriminações precisam entender que ser negro não é de se envergonhar e sim de se orgulhar!

  3. “Conhecimento de causa” … Eh! eh! essa é boa! Não precisa cursar faculdade pra críticar. Bem como, ter o bom senso numa análise de “causa”.

    O fato é que todos estão perdendo o espaço nas “cotas” da vida. O destino do espaço tão discutido estão sendo dominado pelo aumento das “cotas” geradas pelo rejeitados e doutores da violência formados na Universidade das ruas e dos Guetos, pós-graduados e especializados em matar, sequestrar e roubar. Profissionais e comerciantes de drogas.

    Pensem! As cotas não são prá beneficiar uma certa camada da sociedade para uma boa educação mais justa e igualitária. São para alertar que do outro lado não existe “COTAS” e sim, “conhecimento de causa”.

  4. Alem das desvantagens de acesso a cultura, escolas e outros beneficios do cidadao que qualquer outro brasileiro de baixa renda sofre, os negros sofrem tambem o fato historico que por 400 anos foram escravizados como animais de carga. Seres humanos que foram oprimidos pela ignorancia de colonizadores inescrupulosos e hoje sao admirados como desbravadores. Os negros que so a 100 anos atras conseguiram o inicio de sua liberdade estao em desigual desvantagem em comparacao a classe de brancos e outros que nao tem acesso aos direitos basicos de cidadaos.

  5. dentro das propriras senzalas, os negros escravizavam uns aos outros, era a mentalidade da epoca. nao há motivos para reclamaçao sobre a escravidao (quem sofreu ja esta a sete palmos do chao, quem colonizou tambem) ou privilegios.
    se o movimento negro tem que lutar por algo é para uma boa educaçao publica e cultura de qualidade pra populaçao carente, mas tirar vagas na universidades de quem pagou por ensino bom e merecia a vaga nao ta certo! as cotas nao deram certo em nenhum dos paises onde foi implantada e no brasil nao vai ser excessao.

    • junior, não ficou claro se você está se dirigindo ao corpo do post ou a um dos comentários.

      Sinta-se à vontade para comentar, esclarecendo seu ponto de vista mas, como seu comentário foi muito rude, peço que dê uma olhada nos Termos de uso, ok?

  6. eu acho que nao deveria exisir sistemas de cotas,a maioria dos sistemas de cotas e so sobre o racismo, eles deveriam avaliar de acordo com as notas e nao por causa da cor da pele.

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