Qüiproquó com a Veja

Há alguns dias, eu mencionei que não era “muito fã da revista Veja“, e que tinha tido alguns qüiproquós com ela, mas não dei mais detalhes…

Agora, que não preciso mais me preocupar em limitar a quantidade de artigos por mês, e já que a Veja aprontou de novo, “senta que lá vem a história!”

Na edição 1906, de 25 de maio de 2005, na seção Radar, a Veja publicou uma nota falaciosa sobre Software Livre. Veja uma reprodução abaixo:

veja_radar_sl

Essa nota tem diversos dados incorretos. Aborrecido, mandei um e-mail para eles:

De: Jose Luis Carneiro
Para: veja@abril.com.br
Data: Mon, 23 May 2005 15:30:43 -0300 (ART)
Assunto: Radar: O Software Livre quase virou obrigatório

Fiquei INDIGNADO com a reportagem(?) apresentada por Veja, essa semana, na seção Radar, sob o título “O Software Livre quase virou obrigatório”.
Achei um absurdo que uma revista do porte da Veja, formadora de opinião, tivesse uma posição tão leviana. Tentarei ficar fora da discussão entre os modelos livre e proprietário de desenvolver software, mas gostaria de abordar alguns aspectos:

1. OBRIGATORIEDADE:
Declarar Imposto de Renda Pessoa Física é obrigatório para muitos contribuintes, mas eles podem escolher entre diversas formas de fazê-lo:
a) Declaração em formulário (papel);
b) Declaração em meio magnético usando um programa para Windows (Win32);
c) Declaração em meio magnético usando um programa em Java (multiplataforma);
d) Declaração Simplificada Online (usando um formulário web no site da SRF);
e) Declaração Simplificada por telefone (0300).
A declaração em Java é MAIS UMA opção e não existe obrigação para que o contribuinte a utilize. Foi criada para atender à necessidade de alguns contribuintes que, apesar de não usarem a plataforma Windows, eram obrigados a adquiri-la para declarar, ou pagar alguém para declarar por eles.

2. DEMOCRACIA
Mesmo que um dia a declaração em Java fosse a ÚNICA opção disponível (o que parece que não ocorrerá visto estarem surgindo novas opções nos últimos anos), ela seria mais democrática que a declaração no formato antigo, que obrigava o contribuinte a usar um determinado sistema operacional. A linguagem Java é, por natureza, multiplataforma, ou seja, mais democrática que uma linguagem voltada à plataforma Win32.

3. CONTEXTO
Números necessitam normalmente de um contexto, coisa que não é oferecida na reportagem(?). O número de declarações feitas em Java ainda é uma pequena parcela do total, mas aumentou consideravelmente em relação a 2004. Ou seja, o fato de ser pequeno não significa não-aceitação, mas sim, pioneirismo. O repórter(?) parece desconhecer que é o segundo exercício em que este tipo de declaração é oferecido. Se o repórter(?) conseguir os números de declarações entregues em formulário e em meio magnético em 1993, verá que, inicialmente, também era pequeno o número de declarantes em meio magnético. E hoje, consiste na maioria.

4. RESPONSABILIDADE
Veja, em virtude de seu papel de revista formadora de opinião, tem, a meu ver, a OBRIGAÇÃO, de averiguar o material que publica. A atitude, na minha opinião, leviana, que a revista adotou, dá margem a mal-entendidos por parte dos menos preparados. O que serve para o aumento da desinformação e ignorância reinante em nosso país. Coisa que, por definição, Veja e revistas semelhantes, tem a RESPONSABILIDADE de evitar. Vejamos, por exemplo o endereço abaixo:
http://www.cfgigolo.com/archives/2005/05/tentativa_alopr.html

Fico, portanto, aguardando a próxima edição onde, espero, Veja tome alguma atitude para corrigir erro tão VERGONHOSO. Fiquei extremamente decepcionado e, infelizmente, menos tendente a  recomendá-la como meio confiável de informações aos meus alunos.

Recebi apenas uma resposta automática:

Prezado leitor(a),

O departamento de Atendimento ao Leitor de VEJA recebeu seu e-mail.
Sua mensagem eletrônica será encaminhada para a pessoa que
melhor poderá atendê-lo. Se sua carta é destinada à publicação na seção dos leitores, queremos adiantar que por uma questão de espaço nem toda a correspondência que recebemos é publicada. Qualquer comentário que ela contenha será encaminhado aos nossos editores para que eles tomem conhecimento de suas críticas e observações. Se o objetivo de sua carta é outro, por favor, aguarde uma resposta posterior.
Agradecemos o interesse por VEJA e esperamos atendê-lo o mais rápido possível.

Atenciosamente,

Atendimento ao Leitor
Revista VEJA

Apesar de prometerem, meu e-mail nem apareceu na seção de cartas, nem recebi nenhum e-mail tratando sobre o assunto…

Cinqüenta edições depois, edição 1956, de 17 de maio de 2006, na seção Tecnologia, a Veja voltou à carga contra o Software Livre. Mês de maio, mais uma vez. Deve ser a época do ano…

Agora eles atribuíram ao Software Livre, a culpa por diversos erros administrativos do Governo Federal. Apesar da “tentativa” de imparcialidade com a frase: […] Nem sempre o software livre é pior que o comercial, mas sua adoção pelo governo brasileiro revelou-se ineficiente […], o texto está cheio de erros e imprecisões, e está causando polêmica, pondo em dúvida a credibilidade da revista (coisa que eu tinha feito há um ano atrás).

Seguem alguns trechos de matérias em sites diversos. A que eu gostei mais foi a da [Dicas-L]:

br-linux.org (13/05/2006):

[…]
Na minha opinião, não foi tanto um ataque ao software livre em si, mas sim à forma como o governo federal (a única autoridade governamental mencionada nominalmente no texto é Rogério Santanna, da SLTI – Secretário de Logística e Tecnologia da Informação do Ministério do Planejamento) selecionou suas prioridades de uma forma que não dedicou recursos suficientes às áreas que já iam bem, nem alcançou resultado positivo suficiente nas áreas que escolheu tratar com maior atenção.
[…]

br-linux.org (14/05/2006):

[…]
Desta forma, preparei um conjunto de questões bastante diretas sobre 10 pontos levantados pela Veja, e enviei ao Secretário de Logística e Tecnologia de Informação do Ministério do Planejamento, única autoridade governamental citada nominalmente na reportagem. Fiz o envio de forma bastante respeitosa, e (em respeito à sua agenda) enviei cópias para sua chefia de gabinete, para a assessoria de imprensa do Ministério e para chefias técnicas do órgão com que tenho contato mais direto.
[…]

br-linux.org (16/05/2005):

[…]
A transparência dos órgãos de informática do governo federal é exemplar, e ontem mesmo representantes da SLTI, ITI e Serpro decidiram em conjunto que irão responder às questões enviadas pelo BR-Linux – não como uma resposta à Veja, mas sim em respeito à comunidade que os apóia e colabora na legitimação de seus esforços em prol do software livre.
[…]

Observatório de Imprensa (16/05/2006):

[…]
A matéria “A guerra dos porões” (págs. 40-45) segue uma linha que Veja persegue há tempos – derrubar o presidente da República, a maior autoridade do país. Mas foi pensada, escrita e editada no extremo oposto – nos porões de uma profissão que já foi considerada missionária, romântica, decente e respeitável.

Esta que se apresenta como a quarta maior revista do mundo ocidental (quem garante?) e agora traveste-se como “a mais respeitada revista brasileira” (está provado, não é?) sintetizou de forma admirável e trágica a história da sua própria decadência.
[…]

Dicas-L (16/05/2006):

A revista Veja novamente divulga uma matéria mentirosa. Chamada O Grátis que sai caro, a matéria procura atacar o avanço do software livre usando releases publicitários da Microsoft, empresa monopolista que vai perdendo seus lucros monopolistas diante do avanço do modelo de software aberto. […]

CIPSGA – A resposta dos órgãos do Governo (18/05/2006):

Com relação à matéria “O grátis saiu mais caro”, publicada na edição de 17/05/06, gostaríamos de esclarecer que o software livre é uma opção estratégica do governo federal por reduzir custos, ampliar a concorrência, gerar empregos e desenvolver o conhecimento e a inteligência do Brasil nessa área.
Esclarecemos que somente com o Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), citado no texto, obtivemos uma redução de custos de cerca de R$ 14,8 milhões ao implantar o software livre, o que exigiu investimentos em serviços e treinamento de apenas R$ 396 mil. Caso a citação de contratação de 2 mil técnicos esteja referindo-se ao Serpro, a Empresa esclarece que as vagas abertas para concurso público nos últimos anos tiveram o objetivo de atender às várias áreas de atuação, desde desenvolvimento de sistemas, área de rede, datacenter, administrativa e software livre, para citar algumas.
[…]
Rogério Santanna – Secretário Executivo do Comitê Executivo de Governo Eletrônico/Ministério do Planejamento
Renato Martini – Presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação
Wagner Quirici – Diretor-Presidente do Serpro

(PC)2 (19/05/2006):

[…]
A (PC)², empresa especializada no ramo de consultoria em software livre, repudia a reportagem publicada em Veja e a classifica como um ataque deliberado, inconseqüente e infantil contra o governo federal. A questão do software livre deveria ser tratada de maneira apartidária, independentemente de ideologia política. O que a revista Veja fez foi um desserviço aos seus leitores, deturpando e manipulando (mal) fatos e usando o software livre como álibi para promover sua atividade favorita: escândalos.
[…]

Na verdade, eu sei que sempre existirão meios de comunicação decididos a sacrificar a imparcialidade (e sua credibilidade) para defender uma ideologia.

O que me preocupa é: como existe gente inteligente, que acredita em barbaridades dessas como se fossem verdade!

2 comentários sobre “Qüiproquó com a Veja

  1. Sugiro uma campanha pela internet para boicotar a revista. Não sei se é uma atitude coerente, mas acredito que é uma forma de mostrar a força das pessoas que usam e pesquisam o software livre.

    • Acho uma boa idéia, mas não sei se uma campanha para boicotar funcionaria (veja as campanhas para boicotar postos de gasolina), mas creio que podemos começar a expor a linha da revista.
      Creio que convencendo o povo aos poucos, ou ela muda, ou perderá leitores…

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