O trânsito nas cidades grandes: Patetas ao volante?

Gostei muito do texto de Martha Medeiros sobre o trânsito de Salvador, reproduzido no ZÉducando! Aqui entre nós, é impressionante como nossa cidade só consegue ser “a terceira maior cidade do país” em aspectos negativos – em variedade e qualidade dos serviços prestados, perde para muita “cidadezinha do interior”. Isso, sem falar em bibliotecas, museus, livrarias, teatros, cinemas e espetáculos de qualidade…

Voltando ao assunto, o novo filme da série Missão Impossível serviu de parâmetro em uma comparação inspirada da autora. Talvez por ainda não ter visto o novo filme de Tom Cruise, ao ler o texto lembrei-me imediatamente de um antigo desenho animado da Disney, o curta-metragem Pateta no Trânsito (Motor Mania, no original), de 1950.

No desenho, ao assumir o volante, o Sr. Walker (Sr. Andante, em uma saudosa dublagem antiga), um cidadão paciente e educado, tornava-se o terrível Sr. Wheeler (Sr. Volante, antes da globalização), um motorista grosseiro, impaciente e egoísta, capaz das maiores atrocidades no trânsito:

pateta_motormania.gif

Para registro (e por comodidade), também reproduzo o texto:

Missão Impossível

Por Martha Medeiros*

No mais novo e divertido filme da série Missão Impossível, Tom Cruise costura, chuleia e prega botão no trânsito de Dubai. Faz ultrapassagens miraculosas, tira finos, quase atropela uma cáfila de camelos, detona com um Jaguar e sai ileso feito o Papa-Léguas. A plateia delira: eis um valente super-herói.

Aí o filme termina, as luzes se acendem e cada um volta pra sua vidinha sem efeito especial, em seu carro meia-boca e sabendo-se longe de ser um ás em qualquer coisa. Somos homens e mulheres comuns, nem tão belos e com uma profissão pouco empolgante. O que poderíamos ter de semelhante com um personagem tão incrivelmente cartunesco? Ora, ora, também podemos ter inimigos! Então, elegemos os outros motoristas como nossos opositores e assim transformamos a vidinha modorrenta num videogame.

Assim perdura nosso complexo de vira-lata. Quanto mais o cara acelera, faz ultrapassagens arriscadas e tem pressa em chegar antes que o motorista de trás, mais ele atesta sua infantilidade, sua inferioridade e seu despreparo para uma vida consciente e adulta. São babacas que possuem uma visão completamente deturpada de si mesmos. Contraditórios, eles se orgulham por beber, por não usar cinto e por dirigir agressivamente, sem se dar conta de que estão demonstrando o quanto são de segunda categoria.

O que importa é conhecer os truques para voar pelas estradas, sair sem um arranhão e ainda seduzir a garota mais bonita – que é outra babaca se aguenta tudo isso quieta.

Nossas estradas não são o bicho, a sinalização é deficiente, mas nada é de pior qualidade que nossos motoristas. São homens (e algumas mulheres também) impotentes para avançar em suas profissões, impotentes para ultrapassar a concorrência com uma ideia mais criativa, impotentes para conquistar o
respeito da sua turma, impotentes para educar os filhos com responsabilidade, e por isso recorrem a malabarismos e palhaçadas no asfalto.

Usam o carro como um meio de transporte não de um lugar para o outro, mas de um status para o outro – só que são promovidos a delinquentes, não a agentes secretos.

Para eles, inimigos são os que obedecem às leis, os que têm cautela quando chove, os que reduzem em curvas perigosas e “atrapalham” os velozes. Será missão impossível reajustar esse foco? A guerra no trânsito só terá menos vítimas quando motoristas imaturos tiverem amor próprio suficiente para não precisarem se exibir. Ninguém se torna mais admirável por chegar primeiro, por arriscar a vida e protagonizar cenas dignas de um filme de ação.

Esses continuarão menores que Tom Cruise (que já é pequeno) e sendo meros figurantes de uma viagem que exige bravura, sim, mas de outro tipo. A bravura de proteger sua família, de não enxergar os outros como rivais e de ter habilidade para dirigir a própria vida – que exige bem mais que um volante e um acelerador: exige cérebro.

Meninos de 18 anos, meninos de 42, meninos de 67: dirijam com prudência se forem homens.

* Publicado no jornal A Tarde de 15 de janeiro de 2012.

Realmente, nossos motoristas (homens e mulheres, de 18 a 81 anos de idade) adoram exibir-se em carrões, cada vez maiores e mais caros, ou em comportamentos irresponsáveis, egoístas e arriscados, típicos de crianças imaturas. Com o número de carros aumentando, principalmente pela falta de um sistema de transporte de qualidade, e com esses motoristas como modelos, como será o trânsito no futuro?

Ah! Aqueles que desejarem conhecer o desenho (é rápido, apenas sete minutinhos), podem conferi-lo abaixo:

Link para o vídeo

4 comentários sobre “O trânsito nas cidades grandes: Patetas ao volante?

  1. O Sr Andante, quer dizer o Sr Volante, é baiano com certeza! O vídeo que você postou é bacana, mas tem só 17 segundos e não 7 minutos.

    abs,

    José Rosa.

  2. Muito bom o texto, realmente o Pateta reflete a realidade dos motoristas tupiniquins.

    sds,

    Paulo Sergio

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