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Aproveitei um forte resfriado para ler mais um pouco sobre o resultado obtido pela Toyota. A edição deste mês (edição nº 892, maio/2007) traz uma reportagem mais detalhada da montadora japonesa.

Descobri, no Portal Exame, o Blog da Edição, uma seção com comentários e discussões pertinentes à edição corrente. Para esta edição, há reflexões interessantes de dois especialistas sobre a Toyota: Letícia Costa e José Roberto Ferro.

Letícia Costa
Presidente da Booz Allen Hamilton do Brasil, graduada em Engenharia de Produção pela Escola Politécnica da USP, com MBA pela Cornell University. Ela começa dando uma outra perspectiva ao sucesso da Toyota:

[...] é também importante avaliar se o sucesso da Toyota não advém de uma certa falta de pró-atividade de GM e Ford. Os desafios que estas montadoras enfrentam com relação aos sindicatos, aos custos com assistência médica, etc. não são recentes e tampouco desconhecidos. Na realidade, estão na mesa há anos. A pergunta-chave é porque demoraram tanto para começar a endereçá-los. Certamente um importante diferencial da Toyota seja o fato de que a empresa enfrenta seus problemas imediatamente após serem identificados. Acredito, porém, que este fator não seja suficiente para explicar o sucesso da empresa.

Em outro trecho, deixa claros quais seriam, em sua opinião, os demais pontos que deveriam ser considerados:

Dentre os pontos levantados, enfatizo aqueles que, na minha visão, fazem realmente a diferença:

  • Aplicação do TPS (Toyota Production System) como filosofia de trabalho, abrangendo, de fato, todas as áreas da empresa;
  • Visão de longo prazo, com foco no consumidor final, em todas as suas atividades;
  • Gestão da cadeia de suprimentos e de fornecedores;
  • Processo de desenvolvimento de produtos, enfatizando re-uso e “comunalidades”;
  • Desenvolvimento de pessoas, com grande foco em trabalho de equipe e coaching.

Em conjunto, essas práticas fazem com que a Toyota seja capaz de produzir veículos com uma excelente relação custo/benefício. O jargão da indústria que descreve o foco da montadora na produção de carros é o QRD (Quality, Reliability, Durability), ou seja, qualidade, confiabilidade, durabilidade. Tal foco permite que a Toyota possa vender seus carros sem grandes descontos.

[...]

Em outros trechos, Letícia Costa tenta construir o perfil de possíveis concorrentes para a Toyota:

[...] É importante salientar que revolução não significa, necessariamente, uma mudança abrupta. Significa sim, conceitos novos, aplicados com muito rigor e disciplina ao longo do tempo, e que permitam uma diferenciação real em uma indústria, até certo ponto, madura. Neste contexto, acredito que a empresa que vier a desafiar a supremacia da Toyota deverá ser inovadora, seja em produto ou em processo. Simplesmente imitar a Toyota não parece ser suficiente, pois a empresa já está na liderança.

Uma outra pista de suas apostas:

Outro ponto que achei curioso nos comentários foi a ausência de menção a players que pudessem eventualmente fazer frente à Toyota. Sugiro que se analisem os fabricantes coreanos com mais atenção.

José Roberto Ferro
Presidente do Lean Institute Brasil, foi professor da Fundação Getúlio Vargas, Unicamp e UFSCar e coordenador, no Brasil, do programa do MIT sobre a Toyota.

O fim do artigo da Veja deixa a impressão que o Brasil não usufrui dos avanços administrativos da Toyota: No Brasil, a empresa é uma sombra do que faz no resto do mundo. Ficou em oitavo lugar no ranking nacional de vendas de automóveis do ano passado. José Roberto lembra que não é bem assim: :wink:

Até o final de 2001, a Toyota produziu aqui, em volumes muito pequenos, um modelo muito antiquado, o Bandeirante. Apesar do pouco sucesso econômico e comercial e da prioridade da empresa estar centrada em outros mercados, a planta permaneceu aberta no Brasil, em grande medida por ser um dos mais bem sucedidos exemplos de aplicação do TPS (Sistema de Produção Toyota) com altos níveis de verticalizacão e baixos volumes de produção.

Em outro trecho, pondera os riscos da arrogância e acomodação:

Talvez, a única empresa que possa derrotar a Toyota seja a própria Toyota. Ou seja, a empresa pode retroceder ao passado da produção em massa e tornar-se igual às outras montadoras, perdendo seu dinamismo. [...] Se a empresa se acomodar e tornar-se arrogante, exatamente o contrário do que tem sido até hoje, vai abrir espaço para uma efetiva competição.

Torcemos muito para que não aconteça isso. Seria uma grande derrota para o movimento lean em todo o mundo. O que queremos é que efetivamente surjam reais competidores para a Toyota. Seria bom para os consumidores, para a indústria automobilística, para as outras montadoras e bom também para a própria Toyota que assim teria um desafio para manter-se continuamente inovando.

Reflexões interessantes e um serviço simples e poderoso que merece ser usado. :cool:

A propósito, para acessar essas discussões no futuro, o link permanente deverá ser este. :wink:

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