Mais sobre computadores e o aprendizado

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Continuando a discussão sobre os computadores como ferramentas de ensino, o BR-Linux.org noticiou um artigo da professora Ana Cristina Matte, pós-doutora pela Unicamp, contestando a pesquisa que relacionava o uso de computadores em tarefas escolares a um pior desempenho dos alunos, especialmente entre os mais pobres e mais jovens, alvos principais de iniciativas como a One Laptop per Child (OLPC) e o Projeto Um Computador por Aluno (UCA).

A professora considera o computador como uma ferramenta para o acesso às informações e que a abordagem dada aos resultados é ideológica:

O computador não é uma varinha de condão, ele é uma ferramenta para ter acesso a uma infinidade de informações, desde informações úteis até aquelas que eu, ironicamente, chamaria de peçonhentas por seu conteúdo venenoso, ao passar informações erradas aos usuários.

[…]

Sendo assim, […] concluo que a abordagem dos resultados é ideológica. As pesquisadoras colocam a questão da ideologia em sua conclusão, e não estão erradas, mas deixam de dizer algo extremamente importante: toda tecnologia pode ser usada construtiva ou destrutivamente (veja-se a energia atômica), portanto tudo depende do preparo de quem fornece o acesso a essa tecnologia, no caso, pais e professores.

Paulino Michelazzo defende ponto de vista semelhante em um artigo publicado na lista Dicas-L:

Efetivamente este tipo de projeto não seria necessário se governos e empresas possuíssem responsabilidade social e deixassem de lado a politicagem e os desejo irresponsável de lucro fácil. Educação não é politicagem e não deve ser vista exclusivamente como business. Ela deve ser vista como ferramenta para a criação de uma verdadeira política social e também de negócios que efetivamente são bons para todos. Enquanto isso não chega, vivemos no picadeiro como espectadores de um show de interesses pessoais.

[…]

Não comento aqui a necessidade de escolas reais (com carteira, água potável, luz, quadro-negro, etc) pois estamos mais que carecas de saber que isso é obrigatório. Sim, precisamos desta infra-estrutura mínima para o trabalho mas ao mesmo tempo precisamos estar atentos as mudanças que ocorrem globalmente criando propostas efetivas de mudança de nosso sistema de ensino que atenda as necessidades básicas (como escolas realmente) mas que também atendam outras necessidades e realidades existentes. Se de um lado precisamos de mais escolas na região norte, precisamos de mais conectividade na região sul e ambas devem caminhar juntas sem criarmos um nivelamento, seja por baixo ou por cima.

Também considero o computador uma ferramenta e, como tal, tem seus resultados atrelados à forma como é manuseada. Assim, creio ser extremamente importante preparar os alunos para essa ferramenta, a fim de evitar que seu uso seja desvirtuado. Esse segundo artigo tem recebido comentários interessantes. Alguns trechos:

Creio que ainda papel, lápis acomodações decentes e professores motivados e comprometidos farão muito mais que laptops que poderão virar uma mera curiosidade passageira visto que os alunos não terão meios de aproveitar plenamente o potencial do recurso. O MEC principalmente deveria acordar e acabar com estas coisas ridículas como aprovação
continuada e cotas raciais. Se é para existirem cotas que sejam para todos que não possuem condições financeiras branco, negro, pardo o que seja.

[…]

Os computadores são boas ferramentas, quase comparável a um lápis, a uma folha de papel e a boas apostilas; mas não chega a ultrapassar. Eu sou professor universitário e já disse mil vezes: Por que o governo brasileiro não cria boas apostilas em português e matemática e as distribui de graça pela internet? Quem quiser imprimir e vendê-las que o faça (como acontece com as distribuições linux). Por que não ter apostilas GPL ? Isso vale um milhão de vezes mais do que computadores, pessoal!

[…]

Acredito que precisamos fazer muito por nossa educação e não somente dar apostilas gratuitas na internet. Isso não resolve quando o povo não sabe ler e não tem gosto pela leitura. Posso citar dezenas de bibliotecas on-line que contém obras maravilhosas de autores nacionais mas cujo o download não passa de poucas centenas. Por quê? Pelo simples fato que é mais interessante ficar no chat do que ler um romance de Eça de Queiroz.

[…]

Se não houver credibilidade na orientação do uso dos OLPC, o efeito será distorcido como o Bolsa Família. E esta credibilidade não está restrita à cerimônia de doação, às fotos com criancinhas e laptops no lap, digo, colo. Deve haver um aparato contínuo, a longo prazo, incluindo outros recursos não necessariamente de vanguarda como o subsídio de livros e apostilas. As pessoas devem acreditar num futuro para trabalharem por ele. Caso contrário, todos vão se orgulhar de ter o computador do Governo para o chat ou game da moda.

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