Literatura de cordel e BBB, tudo a ver!

bbb.jpg

E começou tudo de novo, estreou mais um Big Brother Brasil. Caramba! Já são doze anos! Acho deprimente curioso crianças nascidas a partir de 1998 não terem recordação de um tempo sem esse… programa.

Aproveitando um artigo sobre o assunto no ZÉducando, do meu amigo Zé Rosa, decidi fazer minha “homenagem” e terminei descobrindo um excelente texto do baiano Antonio Barreto.

Não é a primeira vez que escrevo sobre o Big Brother Brasil, mas esse é um dos melhores textos que já encontrei sobre o assunto. Além de professor, poeta e cordelista, Barreto também é um ótimo crítico, dono de uma escrita afiada e de um grande senso de humor…

A seguir, reproduzo o texto (é bem longo, mas vale a pena ser lido!). Depois, algumas observações sobre ele…

Big Brother Brasil, um programa imbecil

Por Antonio Barreto*

cordel_do_bbb.pngCurtir o Pedro Bial
E sentir tanta alegria
É sinal de que você
O mau-gosto aprecia
Dá valor ao que é banal
É preguiçoso mental
E adora baixaria.

Há muito tempo não vejo
Um programa tão “fuleiro”
Produzido pela Globo
Visando Ibope e dinheiro
Que além de alienar
Vai por certo atrofiar
A mente do brasileiro.

Me refiro ao brasileiro
Que está em formação
E precisa evoluir
Através da Educação
Mas se torna um refém
Iletrado, “zé-ninguém”
Um escravo da ilusão.

Em frente à televisão
Lá está toda a família
Longe da realidade
Onde a bobagem fervilha
Não sabendo essa gente
Desprovida e inocente
Desta enorme “armadilha”.

Cuidado, Pedro Bial
Chega de esculhambação
Respeite o trabalhador
Dessa sofrida Nação
Deixe de chamar de heróis
Essas girls e esses boys
Que têm cara de bundão.

O seu pai e a sua mãe,
Querido Pedro Bial,
São verdadeiros heróis
E merecem nosso aval
Pois tiveram que lutar
Pra manter e te educar
Com esforço especial.

Muitos já se sentem mal
Com seu discurso vazio.
Pessoas inteligentes
Se enchem de calafrio
Porque quando você fala
A sua palavra é bala
A ferir o nosso brio.

Um país como Brasil
Carente de educação
Precisa de gente grande
Para dar boa lição
Mas você na rede Globo
Faz esse papel de bobo
Enganando a Nação.

Respeite, Pedro Bienal
Nosso povo brasileiro
Que acorda de madrugada
E trabalha o dia inteiro
Dá muito duro, anda rouco
Paga impostos, ganha pouco:
Povo HERÓI, povo guerreiro.

Enquanto a sociedade
Neste momento atual
Se preocupa com a crise
Econômica e social
Você precisa entender
Que queremos aprender
Algo sério – não banal.

Esse programa da Globo
Vem nos mostrar sem engano
Que tudo que ali ocorre
Parece um zoológico humano
Onde impera a esperteza
A malandragem, a baixeza:
Um cenário sub-humano.

A moral e a inteligência
Não são mais valorizadas.
Os “heróis” protagonizam
Um mundo de palhaçadas
Sem critério e sem ética
Em que vaidade e estética
São muito mais que louvadas.

Não se vê força poética
Nem projeto educativo.
Um mar de vulgaridade
Já tornou-se imperativo.
O que se vê realmente
É um programa deprimente
Sem nenhum objetivo.

Talvez haja objetivo
“professor”, Pedro Bial
O que vocês tão querendo
É injetar o banal
Deseducando o Brasil
Nesse Big Brother vil
De lavagem cerebral.

Isso é um desserviço
Mal exemplo à juventude
Que precisa de esperança
Educação e atitude
Porém a mediocridade
Unida à banalidade
Faz com que ninguém estude.

É grande o constrangimento
De pessoas confinadas
Num espaço luxuoso
Curtindo todas baladas:
Corpos “belos” na piscina
A gastar adrenalina:
Nesse
mar de palhaçadas.

Se a intenção da Globo
É de nos “emburrecer”
Deixando o povo demente
Refém do seu poder:
Pois saiba que a exceção
(Amantes da educação)
Vai contestar a valer.

A você, Pedro Bial
Um mercador da ilusão
Junto a poderosa Globo
Que conduz nossa Nação
Eu lhe peço esse favor:
Reflita no seu labor
E escute seu coração.

E vocês caros irmãos
Que estão nessa cegueira
Não façam mais ligações
Apoiando essa besteira.
Não deem sua grana à Globo
Isso é papel de bobo:
Fujam dessa baboseira.

E quando chegar ao fim
Desse Big Brother vil
Que em nada contribui
Para o povo varonil
Ninguém vai sentir saudade:
Quem lucra é a sociedade
Do nosso querido Brasil.

E saiba, caro leitor
Que nós somos os culpados
Porque sai do nosso bolso
Esses milhões desejados
Que são ligações diárias
Bastante desnecessárias
Pra esses desocupados.

A loja do BBB
Vendendo só porcaria
Enganando muita gente
Que logo se contagia
Com tanta futilidade
Um mar de vulgaridade
Que nunca terá valia.

Chega de vulgaridade
E apelo sexual.
Não somos só futebol,
baixaria e carnaval.
Queremos Educação
E também evolução
No mundo espiritual.

Cadê a cidadania
Dos nossos educadores
Dos alunos, dos políticos
Poetas, trabalhadores?
Seremos sempre enganados
e vamos ficar calados
diante de enganadores?

Barreto termina assim
Alertando ao Bial:
Reveja logo esse equívoco
Reaja à força do mal…
Eleve o seu coração
Tomando uma decisão
Ou então: siga, animal…

* Professor, poeta e cordelista, baiano natural de Santa Bárbara e residente em Salvador.

O poema começa de forma dura, ofensiva até. Mas gradualmente vai apresentando seus (bons) argumentos:

  • a família (e a sociedade junto com ela) ficando cada vez mais alienada;
  • a ofensa do título de “herói” sendo dado a pessoas que não o merecem; e
  • o papel da sociedade que, ao dar audiência (e dinheiro) a tais programas, contribui para sua existência.

As consequências são nefastas:

  • os jovens têm sua educação prejudicada – para que estudar? Melhor tentar ser um “brother” (ou cantor de pagode ou de funk, ou jogador de futebol…);
  • os tais “heróis” (palavra repetida em todos os programas) são ignorantes, fúteis, falsos e trapaceiros. São esses os valores que queremos para nossos jovens?

As famílias (muitas delas) parecem ignorar esses problemas e os dramas que ocorrem na realidade, em casa ou fora dela, e passam apenas a discutir as fofocas do BBB, durante meses. E algumas pessoas permanecem neste estado de hipnose por anos, já que continuam acompanhando a vida dos participantes (vencedores ou não, ser ex-BBB está virando profissão!).

Alguns dirão que é entretenimento e que, por isso, é importante. Mas, qual será o custo dessa diversão?

Atualização: Além do já citado texto do ZÉducando, vale a pena ler também o contundente texto BBB, de nobre só o horário, do professor Odailson, reproduzido no Matérias Jurídicas.

Atualização 2: Atualizado o endereço do texto do professor Odailson sobre o BBB, já que o Matérias Jurídicas, infelizmente, saiu do ar…

9 comentários sobre “Literatura de cordel e BBB, tudo a ver!

  1. Caro,
    Eu já conhecia esse cordel que havia sido enviado por outro amigo. O post ficou muito bom. Só da última frase Alguns dirão que é entretenimento e que, por isso, é importante. Mas, qual será o custo dessa diversão? é que discordo um pouco.

    Para mim, nem diversão o BBB é. Que diversão é essa? Só se for para apreciar os corpos das mulheres (???) e dos homens (???) que aparecem lá e logo depois estarão na Playboy ou na G-Magazine, porque fora esse hedonismo e voyerismo explícito, não há mais nada.

    Pensando bem, nem isso pode ser considerado diversão, pelo menos diversão sadia.

    abs
    (BBB 2012 – quem financia a baixaria é contra a cidadania!)

    • Como de costume, estou atrasado…

      Mas valeu a pena encontrar esse cordel, até porque: ele não ficou desatualizado e eu conheci o autor, que tem outros muito interessantes também.

      Quanto à pergunta, concordo com você, para mim tampouco o BBB é diversão. Na verdade, soube dessa edição pelo seu comentário.

      A redação original terminava de maneira um pouco diferente. Como a achei muito melodramática, resolvi trocar. Segue a versão original para registro:

      Talvez nossa sociedade esteja viciada nesse tipo de programas e seja como um daqueles fumantes que, mesmo conhecendo os riscos do cigarro, ao invés de reconhecerem a dificuldade em largar o vício esbravejam o dinheiro é meu ou a vida é minha.

      A questão é: será que esses fumantes teriam a coragem de acender um cigarro e pô-lo na boca de seus filhos?

    • Continuando, que não se calam diante de tanta hipocricia.
      Esse BBB é um insulto a nós brasileiros, os verdadeiros herois dessa nação.

      • Rayane, acho que o problema foi que as pessoas pararam de falar para não ficarem “chatas”.

        Talvez, se todos falarmos onde pudermos, começando em casa, consigamos algum resultado.

  2. Professor, gostei muito do “post”, principalmente do seu comentário:

    As famílias (muitas delas) parecem ignorar esses problemas e os dramas que ocorrem na realidade, em casa ou fora dela, e passam apenas a discutir as fofocas do BBB, durante meses. E algumas pessoas permanecem neste estado de hipnose por anos, já que continuam acompanhando a vida dos participantes (vencedores ou não, ser ex-BBB está virando profissão!).

    Pura realidade!

Deixe um comentário: