Defenda-se da retórica eleitoral!

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Assim como os advogados, os políticos ganham a vida empregando a retórica. Eu me refiro à arte de persuadir por meio da linguagem. Como diria o Capitão Nascimento:

– O conceito de retórica… em grego, ρητορική… em latim, rhetorica… em francês, rhétorique… Os senhores estão anotando?

São vários discursos bonitos na época da eleição mas, alguns meses depois, geralmente surge uma certa frustração (ou decepção mesmo) no eleitor. Quem nunca ouviu uma antiga piada sobre o “Inferno em tempo de campanha”?

(Nunca estudei sobre o assunto, mas talvez isso seja um dos fatores que contribuem para o desinteresse do brasileiro com política…)

Assim como acontece na natureza, com o tempo os eleitores estão aprendendo que é necessário criar defesas contra as técnicas empregadas em discursos durante as campanhas eleitorais. Essa semana, li uma matéria muito interessante na Revista Língua Portuguesa que tenta ajudar nisso.

Segundo a matéria, a morte de um dos candidatos a presidente da república teve um enorme impacto nas estratégias dos demais candidatos: uma disputa que vinha sendo marcada como uma das mais propositivas e menos autofágicas sofreu uma reformulação retórica completa e brusca, e não apenas nas chapas presidenciais!

Por essa razão, a revista reuniu algumas das maiores falácias corriqueiras em períodos eleitorais com o objetivo de ajudar o eleitor que, mesmo mais amadurecido (segundo os especialistas), precisa estar atento quando um candidato não detalha como e quando vai fazer o que promete nem quanto vai gastar.

(Em outras palavras, precisa estar atento para não ser enganado.)

Recomendo a aquisição porque, além dessa, há várias outras matérias na revista que valem a pena! Entretanto, como faltam pouquíssimos dias para a eleição, seguem alguns pontos principais:

Usar o “estilo Odorico Paraguaçu”

Suspeite do uso de hipérboles, rodeios e eufemismos (apesar de, em tempos de politicamente correto, evitar eufemismos ser difícil). Como, por exemplo, candidatos que dizem “realinhamento de tarifas públicas” em vez de “aumento de energia e gasolina”. Ou candidatos que fogem da palavra “racionamento” com as expressões “desconforto hídrico” ou “crise de mananciais”…

Manter-se no vazio comunicativo

O período eleitoral costuma ser dominado pela generalização vazia. Candidatos abusam de palavras que causam impacto sem necessariamente os comprometer com algo concreto. Algumas delas são: “desafios”, “esperança”, “conquistas”, “continuidade”, “renovação”, “novo” e “mudança”. As duas últimas, por exemplo, aparecem nos slogans de vários candidatos. Também são comuns expressões com as quais todos concordam mas nada especificam, como “a cidade precisa de saúde” e “o futuro do país depende da educação”, por exemplo.

Apelar a reservas mentais

Concordar com a literalidade da afirmação, mas violar o seu princípio. Por exemplo, perguntado se é a favor ou contra o aborto, o candidato responde: Não conheço ninguém que seja a favor do aborto. A resposta não corresponde à pergunta feita (qual a opinião própria do candidato, afinal?). Respostas como essas criam uma reserva mental, permitindo que o interlocutor interprete a resposta sem que o candidato se comprometa de fato.

Distorcer deliberadamente a posição do oponente

Tática frequente, ainda mais sob forte polarização, como a reta final de uma campanha eleitoral. Consiste em atribuir ao oponente um ponto de vista falso (ou distorcer o ponto de vista verdadeiro) sobre uma questão. Ao exagerar, desvirtuar ou simplesmente inventar um argumento desfavorável para o oponente, fica mais fácil apresentar a sua posição como razoável ou válida.
Normalmente, essa tática só é combatida com a apuração da verdade por parte dos eleitores, o que quase nunca acontece (como ocorre com os boatos que varrem a internet todos os dias).

Driblar o ônus da prova

Quem afirma algo tem a obrigação de prová-lo. É o chamado “ônus da prova”, mas muitos candidatos contrariam esse princípio deliberada e repetidamente. Desconfie ao menos das três maneiras mais frequentes de evitar a apresentação de evidências para sustentar um argumento:

  • considerar óbvio que não há cabimento em questionar a afirmação – Ninguém em seu juízo perfeito pode ser a favor da legalização da maconha.;
  • colocar-se como garantia de correção daquilo que afirma – Estou convencido que… ou Tenho certeza que…, por exemplo. É um jogo calculado: intimida contestações e, se elas vierem, tenderão a vir na forma de um ataque pessoal, facilmente contornável; e
  • tomar a parte pelo todo – elaborar construções frasais em que um comportamento isolado é generalizado, um traço específico vira comum. O candidato afirma um comportamento como sendo “do” brasileiro. Como não está definida a quantidade de brasileiros que sustenta tal opinião, a afirmação apela a generalizações por meio de essências (o brasileiro…).

Fugir da questão concreta

Discorrer sobre algo paralelo à questão central, sem parecer que mudou de assunto:

– O senhor é contra ou a favor da volta da CPMF?
– Veja bem… A captação de recursos para a saúde… blá-blá-blá… e fiz mais pela saúde do que meu oponente… blá-blá-blá… Não se trata de onerar a carga tributária… blá-blá-blá…

Atacar a pergunta

Trata-se de questionar a questão, ao invés de respondê-la. Por exemplo, quando o governo não tem como defender um ato governamental, reage a um pedido de CPI pela oposição, dizendo que se trata de manobra eleitoreira. Quando a oposição quer desviar a atenção sobre uma ação de governo… faz o mesmo(!).

Justificar um erro com outro

O orador justifica um erro pela tradição ou por um equívoco similar do rival cometido algum tempo antes. Para não levar a culpa por algo, argumenta-se que as coisas sempre foram feitas daquela maneira ou que o rival cometeu o mesmo deslize.

Insinuar questões complexas

Consiste em embutir uma afirmação prévia em uma pergunta ou em uma outra afirmação. Por exemplo:

  • A eleitoreira política social do governo gastou milhões do Tesouro – pressupõe que a política social do governo é eleitoreira;
  • É uma ilusão de qualquer governo pensar que o PMDB possa estar unido em seu apoio – enquanto se discute se os governos se iludem ou não com o PMDB, admite-se a tese de que o partido jamais está unido na adesão a um governo.

Abusar do “efeito dominó”

É concluir de uma proposição uma série de fatos ou consequências que podem ou não ocorrer. É um raciocínio levado indevidamente ao extremo, às últimas consequências. Por exemplo:

O álcool e uma dieta pobre também são grandes assassinos. Deve o governo regular o que vai à nossa mesa? A perseguição à indústria de fumo pode parecer justa, mas também pode ser o começo do fim da liberdade.

Conclusão

Sobrecarregado com alguns problemas pessoais, há muito tempo não publico nada. Mas gostei tanto dessa matéria que tive que arranjar um tempinho para escrever sobre ela antes das eleições.

Sei que ninguém vai virar um especialista em identificar armadilhas eleitorais apenas com esse artigo, mas ele traz algumas ferramentas para ajudar os eleitores a interpretar os discursos de pessoas praticam a retórica diariamente como forma de ganhar a vida…

5 comentários sobre “Defenda-se da retórica eleitoral!

    • Obrigado, Zé!

      Na verdade, eu só fico triste porque comprei essa revista no dia 18/09 para ler durante o tratamento de minha mãe e terminei esquecendo-a em um canto. Se tivesse lido antes, teria publicado mais cedo… Bem, paciência!

      Se quiser, assim que as meninas terminarem de lê-la, mando-a para você.

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