Chega de “café-com-leite”

Tenho lido sobre educação infantil e encontrei (aqui) este interessante artigo de Rosely Sayão, publicado na Folha de São Paulo em 12/02/2004:

Não trate o filho ou aluno como café-com-leite

Por Rosely Sayão*

rosely_sayaoCreio que todo mundo conheça o significado da expressão “café-com-leite”. Quando crianças estão participando de um jogo ou de uma brincadeira e acontece de uma delas querer entrar, mas não apresentar condições de acompanhar as regras ou de envolver-se do mesmo modo que as outras, ela é admitida em caráter especial. Trata-se de um recurso para incluir essa criança – em geral, menor do que as outras – naquele grupo sem, entretanto, comprometer o andamento do jogo. Usada nesse sentido de inclusão, a criança café-com-leite é valorizada, já que a mensagem do grupo é clara ao informar que, mesmo reconhecendo que ela ainda não está em condições de partilhar os objetivos dos outros, é acolhida e aceita por todos.

Acontece que muitos pais se apropriaram do significado de tal expressão – sem perceberem – e passaram a usar o seu conceito com o objetivo de proteger o filho, o que perverteu o sentido original dela. Os pais pretendem proteger o filho dos riscos da vida, dos perigos, dos sofrimentos inúteis? Não.

O que eles querem é proteger o filho das situações que a vida oferece e que poderiam resultar em aprendizado por demandarem o enfrentamento de dificuldades ou exigirem esforço, concentração ou responsabilidade, por exemplo. Em geral, essas situações provocam um certo sofrimento e/ou frustração, e os pais acreditam que fazem bem ao poupar o filho delas. Não fazem.

Para explicar melhor, vou a um exemplo. Início de ano escolar, vocês sabem como é, muita expectativa de novidade para os alunos e isso, certamente, cria algumas angústias e ansiedades. Afinal, eles não sabem como será o relacionamento com o novo professor e com os novos colegas, ficam inseguros a respeito do conteúdo que terão de aprender etc.

Os pais logo se dão conta de que o filho passa por um período estressante e, assim que se certificam da condição escolar nova, lá vão para a escola tentar diluir as dificuldades. Conversam com o diretor e/ou com o coordenador para solicitar troca de turma a fim de que o filho fique com o professor que é mais amável ou para que permaneça com colegas já conhecidos; pedem entrevista com o novo professor para explicar as peculiaridades do filho e, assim, procurar diminuir – por antecipação – as exigências que poderiam vir etc. Em outras palavras, os pais dizem à escola que o filho é café-com-leite.

Mas isso não ocorre apenas em relação ao ambiente escolar. Uma garota pediu aos pais que seu presente de aniversário fosse dado bem antes da data porque ela queria muito – mas muito mesmo, segundo o pai – participar de uma viagem com um grupo. O pai e a mãe conversaram e decidiram que valia a pena dar o presente. Dois meses depois, no dia do aniversário, o que fizeram? Compraram um outro presente porque imaginaram que a filha iria sofrer muito por não receber nada dos pais justamente naquele dia. E é bom ressaltar que foi iniciativa dos pais, e não um pedido da garota. Em outras palavras: o casal tratou a filha como se ela fosse café-com-leite.

Ora, abrandar situações complicadas da vida e que as crianças precisam e devem enfrentar é fazer pouco delas, é subestimar todo o potencial de desenvolvimento que elas têm e, inclusive, roubar delas a oportunidade de crescer e, assim, alcançar autonomia e liberdade de vida. Para falar bem a verdade, os pais e professores que agem dessa maneira é que têm a dificuldade que apontam como sendo de filhos ou alunos. A dificuldade desses adultos é a de enfrentar uma situação difícil: acompanhar a nova geração no ato de cair na vida. Nessa aventura, filhos aprendem a desfrutar dos prazeres que a vida oferece, mas também sofrem as dores que o crescimento provoca.

Vamos deixar essa criançada entrar no jogo da vida com dignidade! Jogador café-com-leite não joga para valer, não participa de verdade, não é?

* Rosely Sayão é psicóloga educacional.

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