Bom ou mau?

o_homem_que_calculava.jpg

Hoje eu estava conversando com um colega do trabalho sobre as surpresas que a vida nos reserva: o que temíamos às vezes traz benefícios, enquanto o que desejávamos às vezes traz apenas problemas.

Falamos sobre a parábola de um sábio que avaliava os lados positivo e negativo de cada coisa que acontecia em sua vida e terminei me lembrando que já havia visto algo assim antes…

Pesquisando um pouco, encontrei o texto abaixo, que vi pela primeira vez ainda criança em um livro de Português:

Bom, mas não muito

Por Malba Tahan (pseudônimo de Julio Cesar de Mello e Souza)*

A diligência, entre nuvens de poeira, rolava aos trancos pela estrada. Alguns passageiros, de braços cruzados, meditavam em silêncio. Ouviam-se, de vez em quando, os gritos estridentes do boleeiro…
Na minha frente, dois camponeses conversavam. Um deles, que parecia mais velho, falava desta sorte:
— Tenho agora um magnífico pomar em minha casa.
— Isso é que é bom! — ajuntou o outro, com um sorriso de vulgar e lorpa amabilidade.
— Bom, mas não muito. — respondeu o velho. — Pois tenho com o pomar um trabalho excessivo.
— Isso é que foi mau!
— Mau, mas não muito. Graças ao novo pomar, ganhei algum dinheiro e com esse primeiro lucro comprei um porco.
— Isso é que é bom!
— Bom, mas não muito. O porco fugiu-me de casa e foi para o quintal do vizinho, que se apoderou dele e matou-o.
— Isso é que foi mau!
— Mau, mas não muito. Dei queixa ao juiz e o meu vizinho foi obrigado a me pagar uma boa indenização.
— Isso é que foi bom!
— Bom, mas não muito, pois o tal vizinho, em represália, soltou os cabritos no meu pomar.
— Isso é que foi mau!
— Mau, mas não muito. Matei os cabritos e vendi as peles na feira.
— Isso é que foi bom!
— Bom, mas não muito…
Aquela conversa já começava a fazer-me mal aos nervos. Resolvi descer da diligência, mesmo em movimento; fui, porém, tão infeliz que tropecei numa pedra e caí.
— Isso é que foi mau! Dirá, naturalmente, o leitor. Mau, mas não muito, pois só assim fiquei livre de ouvir, durante algumas horas, uma história que parecia não ter mais fim.
— Isso é que foi bom!

* Julio Cesar de Mello e Souza foi professor, educador, pedagogo, conferencista, matemático e escritor. Através de seus livros (especialmente O Homem que Calculava), foi um dos maiores divulgadores da matemática do Brasil.

Acho que foi por meio desse texto que comecei a aprender que há pontos positivos e negativos em tudo.

Será que os textos de livros de Português mudaram tanto? Porque parece que as pessoas trabalham apenas com extremos hoje em dia!

Um comentário sobre “Bom ou mau?

Deixe um comentário: