A quem devemos cobrar?

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Normalmente o jovem prefere se divertir a estudar mas hoje, com tantas ferramentas à disposição, talvez o mais difícil seja não aprender:

Então, por que um número tão grande de alunos tem resultados abaixo do esperado?

Talvez as reflexões a seguir, gentilmente enviadas por José Rosa, do ZÉducando, ajudem com pelo menos parte desse mistério…

Pais, alunos, escola e paraquedas

por Lilian Silva*

Ao fim de cada ano, sabemos que há um certo congestionamento de emoções, em qualquer ambiente escolar: é um tal de fazer avaliações, entregar trabalhos, esperar resultados, fazer contas; muitos “oba, passei direto!!!” e ainda um tanto de “ai, me deixaram de recuperação…”.

E aí começam os equívocos: ninguém “deixa” ninguém de recuperação. É o resultado de um ano letivo inteiro…

Lamentavelmente, há quem nem note porque teve que fazer a tal recuperação. Claro que aula extra, ainda mais com menos pessoas em classe, não faz mal algum! O complicado é que se pode até aprender “coisas” – e isso é ótimo –, mas é necessário tomar cuidado para que a lição do “tudo tem consequência” não passe ao largo da experiência.

Explico-me: a grande maioria dos estudantes que fica em recuperação está ali não por falta de “saber coisas” (conteúdo conceitual) ou “saber fazer” (conteúdo procedimental). Mas por não saber “ser” (conteúdo atitudinal): não saber ser, ainda, aluno, aprendente, estudante, aprendiz. Certamente, faltou organização, houve ausência de compromisso com a própria aprendizagem. Quem ficou em recuperação, afinal, é aquele que não tem estojo, perdeu o caderno, esqueceu o livro, não notou que havia lição de casa, colocou o papo em dia durante as aulas, não entregou o trabalho, saiu da sala inúmeras vezes, chegou atrasado…

O mais estranho é que, algumas vezes, esse aluno continua com a mesma postura durante o período de recuperação, perdendo a preciosa oportunidade de aprender a ser, além de estudante melhor, uma pessoa melhor.

E o que o paraquedas tem a ver com isso? Fácil: é nessa hora que chegam alguns pais de paraquedas e dizem “mas perder o ano? Por três décimos? E só em duas matérias?”

Pois é? Esses “três décimos” destrinchados em três trimestres que, por sua vez, podem ser destrinchados em 200 dias letivos, muitos trabalhos, projetos, “trocentas” lições de casa e, no mínimo, seis provas e três Conselhos de Classe, não são pouca coisa. Nenhum educador tem o mais remoto interesse em prejudicar o estudante (muito pelo contrário!). Mas é um profissional e seu trabalho deve ser levado a sério. Imagine um dentista falando “arrumei as duas cáries grandes; a pequena (três décimos), vou deixar passar”. Ou o engenheiro: “Construímos dez prédios; nove, legais; um, em só dois andares, com probleminhas estruturais (três décimos), tomara que não caiam!”.

E por que falar disso no incio do ano letivo? Bem… Onde estava esses pais durante os longos meses anteriores que nem notaram que o menino ou a menina estava negligenciando a escola? Guardemos os paraquedas… Cuidemos de nossos filhos, ajudando-os a se organizarem, interessando-nos pelo que acontece na escola, pelo que aprendem, questionando, nos informando, opinando, dando sugestões, acompanhando eventos da instituição, conversando com professores e coordenadores.

Para que pais e alunos comecem – e terminem – bem, mais participação! Que tal acompanhar as notas (a maioria das escolas as tem em sites, mas o bacana mesmo é perguntar diretamente aos filhos), faltas, material, atrasos, interesses e aproveitamento escolar de nossos filhos? Ajudá-los a tomar conta de si com mais responsabilidade? Assim, em dezembro, não haverá sustos. E ninguém caindo de paraquedas. O melhor: aprovado, lição aprendida, poderá sorrir e curtir o doce sabor da merecida vitória.

* Licenciada e bacharel em História pela USP, professora de Ensino Fundamental e Médio. Publicou coleções didáticas de Português (Interação & Transformação) e de História (História da Bahia).

É curioso como os pais atuais tendem a “passar a mão pela cabeça” dos filhos. É claro que as intenções são as melhores possíveis mas, como lembram Lya Luft e Rosely Sayão, essa complacência só prejudica aqueles a quem desejamos proteger.

Afinal, de todos os envolvidos (pais, filhos e professores) quem deve ser o maior interessado no correto aprendizado? Sendo assim, exceto em casos de problemas psicológicos, fisiológicos ou de docência, quem deve ser cobrado por isso?

chaunu_parents_vs_teachers.jpgFonte: Chaunu.fr.

Eu sei que os métodos e as ferramentas de ensino de hoje são muito mais evoluídos que os do passado, mas não tenho certeza se atualmente estamos estimulando o comprometimento e o senso de responsabilidade dos nossos filhos da maneira correta…

4 comentários sobre “A quem devemos cobrar?

  1. Excelente post, como sempre!
    Vou divulgá-lo no Facebook para que mais pessoas tenham a possibilidade de refletir sobre este tema, neste momento crucial para os estudantes, pois estamos no início do ano.

    Abraços,
    José Rosa.

    • Obrigado, Zé (pelo elogio e pela divulgação)! Como somos poucos (em comparação com o resto da população), precisamos usar todas as ferramentas disponíveis para divulgar essa forma de pensar.

  2. Muito bom, leve e bem escrito!! a Educação não pode ser distante, de paraqueda SEM ESTAR FORMANDO O SER, AS ENTRANHAS DO CONHECIMENTO, REALMENTE É INDIFERENTE E DISTANTE.

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