A origem do Dia das Mães

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Em 2009, fiquei surpreso ao descobrir que o Dia das Mães não foi criado pelos comerciantes, mas por uma norte-americana há cerca de um século. Entretanto, pesquisando para o Dia das Mães deste ano, descobri que Anna Jarvis apenas organizou as comemorações do Dia das Mães (o que não é pouco): as homenagens à figura materna existiam desde a Antiguidade.

A seguir, um resumo da trajetória do Dia das Mães até os dias de hoje.

As tradições dos povos antigos

A referência mais antiga data dos festivais gregos em honra a Réia, deusa da fertilidade e “mãe dos deuses”. A titã Réia casou-se com Cronos, um dos seus irmãos, e gerou Deméter, Hades, Hera, Héstia, Poseidon e Zeus. Cronos devorava seus filhos assim que nasciam para evitar que o desafiassem, mas Réia conseguiu salvar Zeus, que cresceu, destronou seu pai e salvou seus irmãos. Os gregos consideravam Réia a representação da esposa e mãe perfeitas.

Na mitologia egípcia, esse papel era desempenhado pela deusa Ísis, que também recebia, entre outros, o título de “mãe dos deuses”. Apesar de não haver registro de comemorações semelhantes ao Dia das Mães entre os egípcios, Ísis teve muita influência nas religiões posteriores, como a grega, a romana e, segundo alguns estudiosos, até a religião católica (mas isso é assunto para outro artigo).

Voltando ao assunto, os romanos também realizavam festivais no início da primavera. Denominados Hilaria, eram em honra a Cibele, deusa da fertilidade e “mãe dos deuses” na mitologia romana. Por sua vez, os celtas realizavam festivais em honra a Brighid, a “mãe tríplice”, responsável pelo retorno do calor do Sol e da abundância da terra.

Os detalhes variavam, mas a maioria das religiões da antiguidade apresentavam entidades no papel de “mãe dos deuses”. Contudo, esses festivais diferiam do atual Dia das Mães, porque celebravam mais o conceito da maternidade do que homenageavam as mães terrenas.

A tradição na Igreja Católica

Na Inglaterra do fim do século XVI, os fiéis iam à igreja no quarto domingo da Quaresma para celebrar o Domingo Laetare. Com o passar do tempo, os servos passaram a ganhar uma folga para visitar a sua paróquia, normalmente acompanhados de suas mães e de outros membros da família. Era uma das raras ocasiões em que a família ficava reunida, já que ainda não haviam sido instituídos os feriados.

Os aprendizes e trabalhadores, que normalmente trabalhavam longe, recebiam folga para irem com suas mães à igreja venerar a Virgem Maria. Eles levavam pequenos presentes e bolos que desempenhavam papel importante na celebração da reunião familiar. Ao longo do tempo, as celebrações católicas começaram a se confundir com as celebrações já existentes, e as pessoas passaram gradativamente a homenagear, além da mãe da Igreja, a sua própria mãe.

O ativismo feminino no século XIX

Em 1870, Julia Ward Howe, poetisa e ativista norte-americana, escreveu o que é considerada a primeira manifestação em prol do Dia das Mães da atualidade. A Proclamação do Dia das Mães foi uma reação pacifista à carnificina da Guerra Civil Norte-Americana e da Guerra Franco-Prussiana.

Na mesma época, Ann Maria Reeves Jarvis, mãe de Anna Marie Jarvis (os nomes são bem parecidos mesmo) organizava com as mães dos soldados, o Dia de Trabalho das Mães, voltado para a promoção da paz e outras causas sociais. Ann Jarvis também fundou cinco Clubes de Trabalho do Dia das Mães voltados para a melhoria das condições sanitárias e de saúde, responsáveis por grande parte da mortalidade infantil à época.

Ao contrário das celebrações do passado, essas manifestações eram muito mais voltadas ao fortalecimento do papel feminino na sociedade do que à simples homenagem à figura materna.

As origens da tradição moderna

Em 1905, Anna Marie Jarvis jurou, no túmulo de sua mãe, dedicar sua vida para criar um dia em honra de todas as mães, vivas ou mortas. Não se sabe ao certo a razão, mas há suspeitas de que sua mãe teria morrido antes que se reconciliassem de uma discussão. Dois anos depois, ela iniciou uma campanha para reconhecer o Dia das Mães como um feriado nos Estados Unidos.

Anna conseguiu cumprir sua promessa pouco tempo depois, em 1914, quando o presidente Woodrow Wilson oficializou o Dia Nacional das Mães sempre no segundo domingo de maio (dia do falecimento de sua mãe), como desejava Anna. Contudo, o novo feriado nacional enfatizava, além do respeito aos pais, o papel da mulher na família, e não na sociedade, como defendiam as manifestações feitas por sua mãe.

O Dia das Mães como o conhecemos hoje

O sonho estava realizado, mas os aborrecimentos começaram já na grafia do nome do feriado. Anna denominou o dia como “Dia da Mãe” (Mother’s Day) e não um genérico “Dia das Mães” (Mothers’ Day), porque deveria servir para que cada família homenageasse a sua respectiva mãe, e não todas as mães indistintamente. Para garantir a grafia correta, ela terminou por registrar as expressões “segundo domingo de maio” e “Dia da Mãe”, mas a grafia adotada no Brasil prova que isso não funcionou como esperado…

Anna defendia que, no Dia das Mães, os filhos homenageassem suas mães com gestos simples, como usar um cravo na roupa e fazer, eles próprios, as cartas que entregariam às suas mães. Sugeria também um código de cores: os cravos seriam coloridos quando as homenageadas estivessem vivas e brancos para as homenagens póstumas.

Ironicamente, o Dia das Mães tornou-se uma data triste para Anna Jarvis. A popularidade do feriado fez com que a data se tornasse, cada vez mais, um dia lucrativo para os comerciantes, principalmente para os que vendiam flores e cartões. Dizia ela:

Um cartão impresso significa apenas que você é muito preguiçoso para escrever para a mulher que fez mais por você do que qualquer outra pessoa no mundo. E doces! Você leva uma caixa para a Mãe — e então você mesmo come a maior parte. Um belo sentimento!
(Anna Marie Jarvis)

Eu queria que fosse um dia de sentimento, não de lucro, disse Anna furiosa a um repórter, em 1923. Neste mesmo ano, Anna entrou com um processo para cancelar o Dia das Mães, sem sucesso. Ela passou o resto de sua vida lutando para restaurar o simbolismo original do feriado e para que as pessoas reconhecessem a importância das mães. Na maioria das ocasiões, utilizava o próprio dinheiro para levar a causa adiante, o que dilapidou a herança de sua família.

Dizia que as pessoas não agradeciam frequentemente o amor que recebem de suas mães. O amor de uma mãe é diariamente novo, afirmou certa vez. Ela morreu em 1948, aos 84 anos. Recebeu cartões comemorativos vindos do mundo todo, por anos seguidos, mas nunca chegou a ser mãe.

O Dia das Mães no Brasil

O primeiro Dia das Mães brasileiro foi promovido pela Associação Cristã de Moços de Porto Alegre, no dia 12 de maio de 1918. Em 1932, o então presidente Getúlio Vargas também oficializou a data no segundo domingo de maio. E, em 1947, Dom Jaime de Barros Câmara, Cardeal-Arcebispo do Rio de Janeiro, determinou que essa data fizesse parte também no calendário oficial da Igreja Católica.

Infelizmente, não consegui concluir este artigo a tempo para o Dia das Mães deste ano. Mas, já que segundo Anna Jarvis, a homenagem do Dia das Mães deve ser feita por meio de gestos simples, achei o cartum abaixo bastante adequado (e estranhamente familiar)…

dia_das_maes.pngFonte: Marty Bucella.

Atualização: acrescentadas informações sobre o Dia das Mães a partir do século XIX.

3 comentários sobre “A origem do Dia das Mães

  1. Excelente ZeLuis! Mais uma vez.

    Foi uma aula de “Dia das Mães”. Tenho duas amigas cujas filhas se chamam Isis e Cibele. Tenho dúvidas se elas sabem dessa história da mitologia. Muito bacana.

    E o cartum? Vou copiá-lo e colocar no ZEducando.

    abraços,

    José Rosa.

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