A lição do granjeiro

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Não gosto muito de republicar textos, especialmente textos já publicados em outros blogs. Mas, aproveito um comentário de José Rosa para dar continuidade à linha de “parábola acadêmica” iniciada há uma semana.

O texto a seguir, publicado originalmente por Rubem Alves, foi reproduzido em um artigo do ZÉducando há pouco mais de três anos, quando respondi com um texto de Max Gehringer sobre a cultura do excesso de talento.

Estou atribuindo-o ao próprio Rubem Alves, já que o escritor não identificou com segurança a autoria, preferindo classificá-lo apenas como uma parábola que “lhe apareceu”.

O Canto do Galo

por Rubem Alves

Era uma vez um granjeiro que criava galinhas. Era um granjeiro incomum, intelectual e progressista. Estudou administração para que sua granja funcionasse cientificamente. Não satisfeito, fez um doutorado em criação de galinhas. No curso de administração aprendeu que, num negócio, o essencial é a produtividade. O improdutivo dá prejuízo; deve, portanto, ser eliminado.

Aplicado à criação de galinhas esse princípio se traduz assim: galinha que não bota ovo não vale a ração que come. Não pode ocupar espaço no galinheiro. Deve, portanto, ser transformada em cubinhos de caldo de galinha.

Com o propósito de garantir a qualidade total de sua granja o granjeiro estabeleceu um rigoroso sistema de controle da produtividade das suas galinhas. Produtividade de galinhas é um conceito matemático que se obtém dividindo-se o número de ovos botados pela unidade de tempo escolhida. Galinhas cujo índice de produtividade fossem iguais ou superiores a 250 ovos por ano podiam continuar a viver na granja como galinhas poedeiras. O granjeiro estabeleceu, inclusive, um sistema de “mérito galináceo”: as galinhas que botavam mais ovos recebiam mais ração. As galinhas que botavam menos ovos recebiam menos ração. As galinhas cujo índice de produtividade fosse igual ou inferior a 249 ovos por ano não tinham mérito algum e eram transformadas em cubinhos de caldo de galinha.

Acontece que conviviam, com as galinhas poedeiras, galináceos peculiares que se caracterizavam por um hábito curioso. A intervalos regulares e sem razão aparente, eles esticavam os pescoços, abriam os bicos e emitiam um ruido estridente e, ato contínuo, subiam nas costas das galinhas, seguravam-nas pelas cristas com o bico, e obrigavam-nas a se agachar. Consultados os relatórios de produtividade, verificou o granjeiro que isso era tudo o que os galos — esse era o nome daquelas aves — faziam. Ovos, mesmo, nunca, jamais, em toda a história da granja, qualquer deles havia botado. Lembrou-se o granjeiro, então, das lições que aprendera na escola, e ordenou que todos os galos fossem transformados em cubos de caldo de galinha.

As galinhas continuaram a botar ovos como sempre haviam botado: os números escritos nos relatórios não deixavam margens a dúvidas. Mas uma coisa estranha começou a acontecer. Antes, os ovos eram colocados em chocadeiras e, ao final de vinte e um dias eles se quebravam e de dentro deles saiam pintinhos vivos. Agora, os ovos das mesmas galinhas, depois de vinte um dias, não quebravam. Ficavam lá, inertes. Deles não saíam pintinhos. E, se ali continuassem por muito tempo, estouravam e de dentro deles o que saia era um cheiro de coisa podre. Coisa morta.

Aí, o granjeiro científico aprendeu duas coisas:

  • primeira: o que importa não é a quantidade dos ovos; o que importa é o que vai dentro deles. A forma dos ovos é enganosa. Muitos ovos lisinhos por fora são podres por dentro; e
  • segunda: há coisas de valor superior aos ovos, que não podem ser medidas por meio de números. Coisas sem as quais os ovos são coisas mortas.

[…]

Acredito que, assim como as piadas, as parábolas surtem mais efeito quando são compreendidas por cada um, dispensando explicações. Por mim, pararia por aqui… Tanto que, quando escrevi este artigo, não incluí as reflexões do autor. Contudo, o sempre vigilante José Rosa chamou minha atenção para o fato de elas são necessárias para criar
o contexto adequado. Sendo assim, seguem a reflexões do autor, por mais que eu ache parecido com uma “explicação da piada”:

[…]

Essa parábola é sobre a universidade. As galinhas poedeiras são os docentes. Corrijo-me: docente, não. Porque docente quer dizer “aquele que ensina”. Mas o ensino é, precisamente, uma atividade que não pode ser traduzida em ovos; não pode ser expressa em termos numéricos. A designação correta é pesquisadores, isto é, aqueles que produzem artigos e os publicam em revistas internacionais indexadas. Artigos, como os ovos, podem ser contados e computados nas colunas certas dos relatórios. As revistas internacionais indexadas são os ninhos acreditados. Não basta botar ovos. É preciso botá-los nos ninhos acreditados. São os ninhos internacionais, em língua estrangeira, que dão aos ovos a sua dignidade e valor. A comunidade dos produtores de artigos científicos não fala português. Fala inglês.

O resultado da pressão “publish or perish”, bote ovos ou sua cabeça será cortada, a docência termina por perder o sentido. Quem, numa universidade, só ensina, não vale nada. Os alunos passam a ser trambolhos para os pesquisadores: estes, ao invés de se dedicarem à tarefa institucionalmente significativa de botar ovos, são obrigados pela presença de alunos a gastar o seu tempo numa tarefa irrelevante: ensino não pode ser quantificado (quem disser que o ensino se mede pelo número de horas/aula é um idiota).

O que está em jogo é uma questão de valores, uma decisão sobre as prioridades que devem ordenar a vida universitária: se a primeira prioridade é desenvolver, nos jovens, a capacidade de pensar, ou se é produzir artigos para atender a exigência da comunidade científica internacional de “publish or perish”.

Eu acho que o objetivo das escolas e universidades é contribuir para o bem-estar do povo. Por isso, sua tarefa mais importante é desenvolver, nos cidadãos, a capacidade de pensar. Porque é com o pensamento que se faz um povo. Mas isso não pode ser quantificado como se quantificam ovos botados. Sugiro que as nossas universidades, ao avaliar a produtividade dos que trabalham nela, dêem mais atenção ao canto do galo…

In: ALVES, Rubem. Entre a Ciência e a Sapiência: o Dilema da Educação. 13ª ed. São Paulo: Ed. Loyola, 2005.

Aqueles que desejarem adquirir o livro, muito bom por sinal, podem fazê-lo aqui.

3 comentários sobre “A lição do granjeiro

  1. Caro ZeLuis,

    Observei nesse seu post que em comparação ao meu faltou a parte abaixo destacada.

    [trecho movido para o corpo do post]

    Quando me aventurei no Mestrado em Educação da Uneb/BA, em uma das primeiras disciplinas a Professora Olívia Mattos nos brindou com este texto para reflexão, digo o texto integral que publiquei no ZEducando.
    Quanto à autoria nunca se sabe. Pelo conteúdo do texto abaixo acho que é mesmo do Rubem Alves. Ele toca numa das maiores feridas da nossa já anacrônica Academia e nos faz refletir sobre o que há por trás disso tudo, do “publish or perish”, uma forte questão axiológica !

    Para uma simples Pós, um difícil Mestrado ou um complexo Doutorado, há que se ter antes de mais nada paciência e QI (o outro), muita paciência e bom QI, depois vem o conhecimento na área e de uma língua (ou duas no caso do Doutorado).

    • Caro Zé Rosa,

      Retirei os comentários do autor por achar que estaria “explicando a parábola” e enfraquecendo seu impacto. Mas, infelizmente, sem os comentários, a parábola não atinge seu objetivo.

      Sendo assim, movi, do seu comentário para o corpo do post, a parte faltante.

      Mais uma vez, obrigado por suas contribuições!

  2. Bom dia! Achei muito interessante a parabola que postou. Eu nao conheço o sistema das universidades no Brasil, pois estudei para a Licenciatura em Italia e depois tirei Mestrado em Portugal. O tema era Literatura, também valia a regra “publish or perish”, mas nao era importante a lingua. Lembro que a uma colega americana foi dada a possibilidade de escrever a sua tese em inglês, eu, sendo italiana, nao tive direito à escrevê-la em italiano mas em português. Achei normal e natural, tratando-se de uma tese sobre literatura portuguesa. Mas o pior é que para publicar, em Portugal, mas ainda mais em Italia, nunca chegou ter boas ideias, vontade de escrevê-las e fundamenta-las. Sempre foi preciso ter alguém, conhecer alguém que facilitasse a pubilcaçao. Essa é a minha experiência. Nao quero dizer que é sempre assim para toda a gente. E esta foi uma das razoes que me fez desistir dos estudos.

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