A coragem de ser responsável

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Ensinar exige coragem.

Na sala de aula, o conteúdo deve ser útil, não apenas naquele momento, mas, principalmente no futuro, quando o aluno entrar no mercado de trabalho. Também é necessário ensinar ao aluno como reciclar aquele conhecimento sozinho, porque o professor dificilmente estará com ele quando isso for necessário.

A facilidade de acesso a informações proporcionada pela internet multiplicou a necessidade de manter-se atualizado de forma impressionante. O professor precisa ainda ter tato e paciência para lidar com as discordâncias dos alunos, nem sempre devidamente polidos. Também deve estar preparado para admitir que desconhece a resposta a uma pergunta, ou ainda, que cometeu um erro.

Parece difícil? Educar seus próprios filhos, a boa e velha educação doméstica, pode ser ainda mais desafiador.

Além da maior responsabilidade (afinal, são seus filhos), o ambiente familiar diminui a distância entre “professor” e “aluno” (no caso, pai e filho), normalmente resultando na confusão entre intimidade e falta de respeito.

Para piorar, atualmente a sociedade está mais preocupada em não ferir suscetibilidades do que em educar a nova geração. São:

  • professores preocupados com a cor da caneta usada nas correções;
  • pais que esquecem do seu papel e tentam ser “amiguinhos”; e
  • políticos consumindo dinheiro público para discutir o que é “palmada pedagógica” e se ela pode ser usada pelos pais.
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O castigo ontem e hoje

Felizmente, textos como o de Rosely Sayão, reproduzido aqui há alguns anos, e o de Lya Luft, reproduzido abaixo, ajudam-nos a recuperar o bom senso: ensinar é ser responsável!

Sobre pais e filhos

Lya Luft* (Revista Veja, ed. 1858)

lya_luft.jpg“Por que as crianças hoje são tão malcriadas e os adolescentes tão agressivos?”

A pergunta mexeu com todos. Alguns aplaudiram, outros deram risada (solidária, não irônica), e pareceu correr pela sala uma onda de alívio: o problema não era a dor secreta de cada um, mas uma aflição geral. Minha resposta não foi nada sofisticada. Saltou espontânea de trás de tudo o que li sobre educação e psicologia:

“Porque a gente deixa”.

E a gente deixa porque talvez uma generalizada troca de papéis nos confunda. Por exemplo, a que ocorre entre público e privado. Vivemos uma ânsia de expor o que pensamos sobre os outros, achando que nos resguardamos da opinião alheia. No entanto, essa é uma forma de botar a cara na janela, tornar-se cabide dos fantasmas alheios – uma verdade mais contundente do que imaginam os que nunca se debruçaram em nenhum parapeito.

Quando pequena, numa cidade do interior, era engraçado no fim da tarde, no sobrado de meus avós, subir numa banqueta e, cotovelos apoiados em almofadas, ficar olhando pela janela o que se passava na rua. Até que descobri que eu é que estava sendo olhada: eu me expunha. Eu, tímida e assustada, era personagem, não platéia. E a janela perdeu a graça.

Filhos malcriados e agressivos… O problema da autoridade em crise não é do vizinho, não acontece no exterior, não é confortavelmente longínquo. É nosso. Parece que criamos um bando de angustiados, mais do que seria natural. Sim, natural, pois, sobretudo na juventude, plena de incertezas e objeto de pressões de toda sorte, uma boa dose de angústia é do jogo e faz bem.

Mas quando isso nos desestabiliza, a nós, adultos, e nos isola desses de quem estamos ainda cuidando, a quem devemos atenção e carinho, braço e abraço, é porque, atordoados pelo excesso de psicologismo barato, talvez tenhamos desaprendido a dizer não. Nem distinguimos quando se devia dizer sim. Estamos tão desorientados quanto esses que têm vinte, trinta anos menos do que nós. Assim é instalada a inversão, e esta pode ser bem dolorosa.

Muitas vezes crianças são excessivamente malcriadas e adolescentes agressivos demais porque têm medo. Ser insolente, testar a autoridade adulta, quebrar a cara e bater pé, tudo isso faz parte do crescimento, da busca saudável de um lugar no mundo. Mas não ter limites é assustador. Ser superprotegido fragiliza. O mundo é informe quando se está começando a caminhar por ele: quem poderia sugerir formas, apontar caminhos, discutir questões, escutar e dialogar está tão inseguro quanto os que mal acabaram de nascer.

Teorias mal explicadas, mal digeridas e mais mal aplicadas geraram o medo de magoar, de afastar, de “perder” o filho. A fuga da responsabilidade, o receio de desagradar (todos temos de ser bonzinhos) aliam-se ao conformismo, o “hoje em dia é assim mesmo”. Ninguém mais quer ser responsável: é cansativo, é tedioso, dá trabalho, causa insônia. Queremos ser amiguinhos, mas os filhos precisam de pais. E, intuindo nossa aflição, esperneiam, agridem, se agridem – talvez por não confiarem o suficiente em nós.

Ter um filho é, necessariamente, ser responsável. Ensinar numa escola é ser responsável. Estar vivo, enfim, é uma grave responsabilidade. Não basta tentar salvar a própria pele nessa guerrilha social, econômica, ética e concreta em que estamos metidos. Trata-se de ter ao menos um pequeno facho de confiança, generosidade e experiência, e colocá-lo nas mãos das crianças e dos jovens que, queiram eles ou não, se voltam para nós – antes de se voltarem contra nós.

* Lya Luft é escritora.

Concordo plenamente com a autora, educar um filho é cansativo, é tedioso, dá trabalho e causa insônia. Mas, ser pai é, antes de tudo, ser responsável. Iremos magoar, afastar, “perder” nossos filhos, se não cumprirmos esse papel. Essa lição precisa ser aprendida por nós e repassada para eles.

Afinal, eles também serão pais um dia, não é?

Um comentário sobre “A coragem de ser responsável

  1. Excelente post. Gostei do paralelo professor-aluno/pai-filho.
    O que você escreveu concordo plenamente, sobre o novo papel do professor:

    A facilidade de acesso a informações proporcionada pela internet multiplicou a necessidade de manter-se atualizado de forma impressionante. O professor precisa ainda ter tato e paciência para lidar com as discordâncias dos alunos, nem sempre devidamente polidos. Também deve estar preparado para admitir que desconhece a resposta a uma pergunta, ou ainda, que cometeu um erro.

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